
De voz em voz, os avós ainda chegam até nós — e o silêncio do viaduto não apaga o que eles ensinaram
Adão Gomes — Jornalista Profissional (MTB-AM 000191). Analista de inteligência política, econômica e estratégica. MBA em Inteligência Artificial para Organizações Contemporâneas — La Salle. Pós-graduando em Direito Empresarial — UniAnchieta/SP.
Há coisas que a gráfica não pode atrasar. Podem segurar o papel, podem embaralhar a logística, podem interpor o viaduto cultural Rio-São Paulo entre a pressa e a espera — mas o que um avô planta em um neto, isso não espera entrega. Isso já chegou. Há muito.
Aldísio Filgueiras — poeta, jornalista, membro da Academia Amazonense de Letras e um dos nomes mais consequentes da literatura amazônica das últimas décadas — anunciou nos últimos dias que o lançamento do seu novo livro, De voz em voz nossos avós chegam até nós, pela Editora Valer, precisou ser adiado. A gráfica, do lado paulista do viaduto, não entregou a tempo. O evento que estava marcado para este domingo, 7 de junho, foi suspenso. A data exata, a Valer anunciará em breve.
Mas o título do livro, esse ninguém segurou. E é ele que importa agora.
De voz em voz nossos avós chegam até nós. Leia de novo, devagar. Essa frase não é apenas um título literário. É um diagnóstico civilizacional numa era em que a transmissão oral foi substituída pelo scroll infinito, pelo algoritmo que escolhe o que você deve lembrar, pela inteligência artificial que processa a memória coletiva da humanidade sem nunca ter ouvido uma história à beira de um fogão a lenha.
Aldísio sabe o que está fazendo. Com mais de trinta anos de obra publicada, com títulos que atravessaram Manaus como bisturis poéticos — de Estado de sítio a Manaus: como se diz, como se vê —, ele não escolhe títulos por acidente. Cada palavra do novo livro é uma escolha política sobre o que merece ser preservado.
E o que merece ser preservado, aqui, é a voz. A voz dos avós.
Pense no que isso significa em termos práticos. A geração dos nossos avós — e estou falando da geração que construiu o Amazonas com as mãos, que navegou rios sem GPS, que criou filhos sem manual de parentalidade importado dos Estados Unidos — essa geração transmitia tudo que sabia através da fala. Era na conversa ao entardecer, no causos contados à mesa, na instrução passada enquanto se remendava uma rede ou se preparava o peixe, que o saber circulava. Não havia podcast. Não havia curso online. Havia presença. Havia voz. Havia tempo.
Esse tempo foi assassinado com requintes de crueldade pelo século XXI.
Hoje, a transmissão geracional está em colapso técnico. Não porque os avós pararam de querer ensinar. É porque os netos pararam de conseguir ouvir. A atenção média de um jovem de 18 anos, segundo pesquisas recentes de neurociência cognitiva, caiu para menos de oito segundos em estímulos textuais contínuos. Oito segundos. Um avô não consegue nem dizer o nome completo da cidade onde nasceu nesse intervalo.
É contra esse colapso que Filgueiras escreve.
E ele não está sozinho nessa percepção. O mundo inteiro começou a acordar para o que estava sendo perdido. Na última década, surgiu uma mobilização global silenciosa — não viral, não algorítmica — em torno da recuperação da memória oral. Projetos de genealogia explodiram em popularidade. Plataformas de arquivamento de histórias familiares cresceram em todos os continentes. Povos indígenas da Amazônia iniciaram processos urgentes de documentação oral antes que os últimos guardiões de línguas e saberes partissem.
Porque quando um avô morre sem ter sido ouvido, uma biblioteca inteira pega fogo.
Isso é especialmente verdadeiro na Amazônia. Aqui, a transmissão oral não é tradição folclórica — é infraestrutura de sobrevivência. Como atravessar o igapó. Como ler o tempo pelo comportamento dos pássaros. Como usar a floresta sem destruí-la. Como respeitar o rio. Como entender que a chuva tem hora e que a hora da chuva é mais confiável do que qualquer previsão do tempo no celular.
Esses saberes não estão em manual nenhum. Estão em vozes que estão envelhecendo.
Aldísio Filgueiras, ao nomear seu livro De voz em voz nossos avós chegam até nós, está praticando um ato de resistência epistêmica. Está dizendo que o saber que vale não é sempre o que tem ISBN, DOI ou número de citações no Google Scholar. Às vezes, o saber que vale é o que a avó sussurrou enquanto enrolava o cabelo da neta. O que o avô disse enquanto ensinava a pescar sem anzol.
Mas, e os valores? Será que o que nossos avós ensinavam ainda se aplica hoje?
A resposta é incômoda. Porque depende de qual ensinamento estamos falando.
Nossos avós ensinaram sobre hierarquia e respeito à autoridade. Nem sempre isso envelheceu bem — sabemos disso. A autoridade que não presta contas, que não se questiona, que se sustenta apenas pelo cargo ou pela idade, essa acabou. O mundo mudou. A democracia, mesmo com todos os seus problemas, exige cidadãos capazes de questionar.
Mas nossos avós também ensinaram sobre responsabilidade. Que uma palavra dada vale mais do que um contrato. Que a dívida se paga. Que o trabalho não envergonha. Que a honra não tem preço de mercado. Esses ensinamentos não envelheceram — eles estão em falta.
Numa era em que fake news se fabricam em segundos e se disseminam em minutos, a palavra dos nossos avós — verificável pela vida inteira que eles viveram na nossa frente — tem valor epistêmico que nenhuma plataforma de checagem reproduz.
Numa era em que o endividamento compulsivo foi transformado em estilo de vida e o crédito fácil virou armadilha para gerações inteiras, a lição da avó que guardava dinheiro no fundo da panela, que comprava à vista, que nunca gastava o que não tinha — essa lição não é arcaica. É revolução.
Numa era em que o individualismo foi transformado em virtude e a solidariedade foi recodificada como ingenuidade, o ensinamento do avô que ajudava o vizinho sem pedir recibo, que participava da comunidade sem câmera, que construía coletivo sem fazer disso conteúdo para rede social — isso não é saudosismo. É o que o mundo precisa urgentemente recuperar.
Filgueiras está fazendo, com a literatura, o que o jornalismo deveria fazer com mais frequência: perguntar o que estamos jogando fora junto com o que deveria ser descartado.
Porque nem tudo que é velho está errado. E nem tudo que é novo está certo.
O adiamento do lançamento de De voz em voz, paradoxalmente, deu ao livro um presente. Deu tempo. Tempo para que o título circule antes da obra. Tempo para que cada pessoa que leu a notícia do adiamento tenha ficado, por um segundo, pensando nos próprios avós. No que eles disseram. No que deixaram de dizer. No que você ainda pode ouvir, se correr.
Porque há avós ainda vivos. Há vozes que ainda podem ser ouvidas. E a janela — como toda janela — não fica aberta para sempre.
O livro de Aldísio Filgueiras chegará nas mãos dos leitores na data que a Editora Valer anunciar. Mas o que ele carrega — a ideia de que a memória oral é patrimônio, de que a voz dos avós é arquivo, de que a transmissão geracional é política — isso já está circulando. De voz em voz, como sempre foi.
A gráfica atrasou. A memória, não.
Fundador do portal de notícias mais antigo do Amazonas (desde 2000). Especialista em Análise de Risco Estratégico e Blindagem de Dados. 26 anos · +83.500 matérias publicadas, com zero processos judiciais, cujos textos são de sua autoria, utilizando apoio das fontes pesquisadas com as plataformas de IA. 'A tecnologia executa, o autor conduz.' Protocolo AZR-BRS v2.0 AZR Híbrido. www.nafrente.com
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