Quinta, 11 de Junho de 2026
22°C 30°C
Manaus, AM
Publicidade

Omar Aziz, Roberto Cidade, David Almeida e Maria do Carmo Seffair: o Amazonas opera mais, mas quem vai revelar o número real de pacientes ainda presos na fila cirúrgica — inclusive os que morreram esperando?...

;;

20/05/2026 às 14h23
Por: Adão Gomes
Compartilhe:
Criada por IA Adão Gomes
Criada por IA Adão Gomes

Omar Aziz, Roberto Cidade, David Almeida e Maria do Carmo Seffair: o Amazonas opera mais, mas quem vai revelar o número real de pacientes ainda presos na fila cirúrgica — inclusive os que morreram esperando?

 

Adão Gomes — Jornalista Profissional (MTB-AM 000191). Analista de inteligência política, econômica e estratégica. MBA em Inteligência Artificial para Organizações Contemporâneas — La Salle. Pós-graduando em Direito Empresarial — UniAnchieta/SP.

 

Há um número que o Governo do Amazonas não divulga. Não é o número de cirurgias realizadas — esse, o Estado anuncia com entusiasmo e frequência. Não é o percentual de redução de fila — esse também vai a público com destaque, acompanhado de fotos do governador e de pacientes aliviados. O número que falta, o número que o sistema se recusa a produzir com transparência, é o mais simples e o mais brutal de todos: quantos amazonenses ainda esperam por uma cirurgia hoje — e quantos morreram esperando.

É possível saber, com razoável precisão, que em 2025 o Amazonas realizou 336.816 procedimentos cirúrgicos eletivos — a maior produção da história do estado, 20% acima do ano anterior, suficiente para colocar o Amazonas entre os dez estados que mais operam no país pelo SUS. Esse dado existe, é auditável, está no Monitor de Cirurgias do Ministério da Saúde. Mas o dado simétrico — o estoque da fila, o saldo que ainda sangra — continua opaco. O último número público da fila consolidada data de julho de 2023: 13.800 pessoas. Depois disso, silêncio. O governo passou a comunicar produção. Deixou de comunicar demanda.

Essa diferença não é burocrática. É política. Quem controla o numerador — o que foi feito — sem revelar o denominador — o que ainda falta — não está informando. Está gerenciando a percepção. E enquanto a percepção é gerenciada, pessoas esperam. Algumas morrem esperando. E os mortos não entram em estatística nenhuma.

O Opera+ e o que ele não resolve

O Programa Opera+ Amazonas é real e seus resultados são verificáveis. Criado em 2021 para enfrentar o represamento histórico de cirurgias, o programa empurrou o Amazonas para um patamar de produção cirúrgica que poucos estados da região Norte alcançaram. Em 2025, os centros cirúrgicos da rede estadual passaram a operar também à noite, nos fins de semana e feriados. Credenciamentos por produção abriram espaço para prestadores privados. O investimento declarado foi de R$ 186,6 milhões — R$ 155,5 milhões estaduais e R$ 31 milhões federais. Os números que chegam ao público são expressivos: redução de 83% na fila de cirurgias gerais, de 79% na ginecologia, de 78% na urologia, de 57% na ortopedia. A catarata, especialidade que concentrava uma das maiores filas históricas da capital, chegou a ter a fila zerada em Manaus.

Mas há uma arquitetura narrativa por trás desses números que precisa ser examinada. As reduções percentuais são calculadas a partir de um baseline que não é divulgado com clareza. Reduzir 83% de uma fila significa algo muito diferente dependendo do tamanho original dela — e esse tamanho original nunca foi tornado público de forma consolidada. Além disso, as especialidades que compõem o Opera+ são, predominantemente, cirurgias de média complexidade concentradas na capital. Oncologia, neurocirurgia, cirurgia cardíaca, alta complexidade ortopédica — essas áreas ficam à margem das metas do programa. São justamente as especialidades onde a espera mata mais depressa.

Para 2026, o governador Roberto Cidade anunciou novas metas: 342 mil procedimentos, com prioridade para cirurgias ortopédicas de alta complexidade — joelho, ombro, quadril — e para a ginecologia. O investimento previsto cresce para R$ 213 milhões. A meta de espera máxima para cirurgias prioritárias é de 30 dias. São compromissos ambiciosos. A questão é que nenhum deles responde à pergunta central: quantos amazonenses ainda estão na fila agora.

O SISREG que para — e o que vem depois

O Sistema Nacional de Regulação — SISREG — é a espinha dorsal do agendamento cirúrgico no SUS amazonense. É nele que os pacientes são inseridos, regulados, convocados. E é nele que as histórias mais brutais acontecem em silêncio. Em agosto de 2025, uma instabilidade no sistema deixou pacientes impossibilitados de agendar exames pré-cirúrgicos obrigatórios durante dias. Uma universitária relatou o caso da mãe, anêmica e com indicação de cirurgia urgente: 'A única coisa que está separando ela da cirurgia são esses exames que eu não consigo marcar. Minha mãe está anêmica, sente dor, e não conseguimos seguir com o tratamento. É desumano.'

Não foi um episódio isolado. Pacientes que acompanham a própria jornada no SISREG relatam meses sem atualização no cadastro — o sistema não muda de status, não emite comunicado, não diz se a fila avançou ou não. A frase que circula em grupos de saúde no Amazonas resume o sentimento de quem depende do sistema: 'Se for esperar pelo SISREG, a gente morre.' O Ministério Público Estadual abriu procedimento apurando demoras excessivas no agendamento, e a promotora Luissandra Chíxaro de Menezes confirmou publicamente que os casos recebidos 'apontam para demora excessiva'.

Em fevereiro de 2025, o governo anunciou o programa Saúde Amazonas Digital para substituir o SISREG. A nova plataforma usaria inteligência artificial e WhatsApp para confirmar agendamentos e organizar o fluxo de consultas pré-cirúrgicas, com meta de 600 mil atendimentos por mês. Em janeiro de 2026, um portal de dados em tempo real sobre filas e leitos foi lançado. São sinais de modernização real. Mas o problema do SISREG não era apenas tecnológico — era estrutural. Municípios sem sistema digital simplesmente não inserem pacientes no sistema. Pacientes que desistem após anos de espera saem da fila sem registro. E pacientes que morrem em casa, nunca formalmente convocados, não existem em nenhum banco de dados.

O interior: onde anestesista é artigo de luxo

Para entender a fila cirúrgica do Amazonas em sua dimensão real, é preciso sair de Manaus. A capital concentra hospitais, cirurgiões, equipamentos e o Opera+. O interior — 61 municípios espalhados por uma área maior do que vários países europeus — opera em outra realidade. Uma realidade onde um anestesista é, literalmente, um luxo que a maioria das prefeituras não consegue pagar.

Os números são verificados e públicos. Para atuar em municípios do interior do Amazonas, a diária de um anestesista chega a R$ 6.600 — o que equivale a R$ 204.600 por mês. Ginecologistas-obstetras e cirurgiões-gerais cobram, cada um, R$ 148.800 mensais. Um pacote com os três especialistas necessários para um centro cirúrgico básico funcionar ultrapassa R$ 503 mil por mês. O repasse federal para municípios como Lábrea gira em torno de R$ 216 mil mensais — insuficiente para pagar dois cirurgiões, sem contar anestesista, enfermagem, material e estrutura.

O resultado é previsível: a maioria dos municípios amazonenses não tem anestesista no quadro fixo. Sem anestesista, não há cirurgia eletiva. Sem cirurgia local, o paciente precisa ir a Manaus. E chegar a Manaus, no Amazonas, não é pegar um ônibus. É dias de barco, passagem aérea que pode não ser emitida, ambulância fluvial que pode quebrar no meio do rio. Em 2025, 1.472 pacientes faltaram a cirurgias agendadas porque simplesmente não conseguiram chegar à capital — o governo chama isso de absenteísmo cirúrgico, mas o nome correto é impossibilidade logística.

O governo reconhece o problema e tem agido em algumas frentes: o Barco Hospital São João XXIII percorreu 19 municípios e realizou mais de 138 mil atendimentos em 2025; as Carretas da Saúde chegaram a 65 mil pessoas; a telessaúde está presente nos 62 municípios. Desde 2019, 53 UTIs foram entregues em municípios-polo como Humaitá, Tefé, Tabatinga e Parintins. São avanços concretos. Mas UTI não faz cirurgia. Telemedicina não opera hérnia. E o Barco Hospital não tem capacidade para absorver a demanda reprimida de 62 municípios.

Os que morreram esperando

Não há número oficial consolidado de quantas pessoas morreram aguardando cirurgia no Amazonas. Isso, por si só, já é uma denúncia. Em qualquer sistema de saúde minimamente estruturado, essa informação existe — é o que permite corrigir a fila, priorizar os mais graves, prestar contas à sociedade. No Amazonas, ela não existe publicamente porque o sistema não foi desenhado para produzir esse dado.

O que existe são histórias. A adolescente Andressa Lago da Cruz aguardou 20 dias por um leito na Fundação Centro de Controle de Oncologia — a FCecon — e morreu antes de ser internada. Um paciente com tumor cerebral esperou 35 dias pela mesma vaga. Um homem que sobreviveu a um AVC aguardou cinco meses por uma cirurgia no pescoço: 'Será que estão esperando eu morrer?', perguntou à imprensa. Familiares de pacientes oncológicos relatam que a demora 'abreviou os dias de vida' de seus entes queridos. Esses casos foram noticiados, tiveram nome e rosto. Quantos não tiveram?

A FCecon, referência em oncologia no Amazonas, é o epicentro mais visível dessa tragédia silenciosa. O câncer não espera. Tumores que seriam tratáveis em estágios iniciais tornam-se inoperáveis após meses de demora. A lei federal determina que pacientes com diagnóstico de câncer tenham o tratamento iniciado em até 60 dias — mas o sistema de regulação amazonense não garante esse prazo para especialidades de alta complexidade. O Opera+ não cobre oncologia entre suas metas principais. E o SISREG continua sendo o gargalo entre o diagnóstico e o bisturi.

O que o Ministério Público e a Defensoria dizem

A Defensoria Pública do Amazonas atuou, em 2025, em mais de 907 mil atos — atendimentos, petições e ações judiciais. O Núcleo de Defesa da Saúde, o Nudesa, é a linha de frente da instituição nas demandas cirúrgicas. Uma ação judicial movida pelo Nudesa liberou R$ 550 mil para 13 cirurgias de arritmia cardíaca. Outra ação bloqueou R$ 2,35 milhões para insumos e viabilizou 100 cateterismos e sete ablações. O caminho percorrido por essas famílias é revelador: quando o sistema falha, a solução é judicial. E judicialização é o sinal mais eloquente de que o sistema falhou.

O Ministério Público Estadual abriu procedimento investigando demoras excessivas em cirurgias ortopédicas e cobrou do Ministério da Saúde um plano de redução de filas com repasse de R$ 12 milhões. A promotora responsável afirmou que as medidas judiciais são 'paliativas diante de um sistema que não funciona'. Para tentar reduzir a pressão judicial, o Tribunal de Justiça criou, em setembro de 2023, a Câmara de Resolução Extrajudicial de Litígios de Saúde — a CRELS-AM. A existência de uma câmara específica para resolver disputas de saúde fora dos tribunais é, ela mesma, uma medida do tamanho do problema.

A economia da fila: o que custa não operar

Há uma ilusão contábil embutida na lógica da fila cirúrgica: a cirurgia que não foi feita não aparece no orçamento. Ela não tem nota fiscal, não tem código de procedimento, não consome leito. Parece que custou zero. Na prática, o custo é multiplicado ao longo do tempo — em internações de urgência que seriam evitáveis, em benefícios previdenciários concedidos por incapacidade temporária, em transporte sanitário repetido para reavaliações, em processos judiciais que mobilizam o aparato do Estado, em vidas paralisadas enquanto se espera uma vaga.

O impacto humano dessa conta invisível tem nome e sobrenome. Raimundo, 67 anos, aguardou uma cirurgia vascular desde 2021. Perdeu três dedos do pé enquanto esperava. O médico confirmou: se tivesse sido operado no tempo certo, a amputação seria evitável. A família gastou R$ 4.300 em transporte e exames particulares durante os anos de espera — dinheiro que famílias de baixa renda não têm. Valdeney era o provedor da família; afastado por condição cirurgicamente tratável, ficou meses sem renda enquanto o sistema decidia quando operá-lo.

O número que o estado precisa mostrar

A saúde pública do Amazonas avançou em aspectos concretos nos últimos anos. O Opera+ é um programa real, com resultados verificáveis. A entrega de UTIs no interior, o Barco Hospital, a telessaúde nos 62 municípios, a criação do Cepcolu — esses são avanços que não podem ser desconsiderados. O problema não é negar o que foi feito. O problema é aceitar que o que foi feito seja a única métrica do sistema.

Uma gestão pública de saúde responsável precisa divulgar duas coisas com a mesma frequência e a mesma visibilidade: quantas cirurgias foram realizadas e quantas ainda precisam ser feitas. A segunda informação é a única que permite avaliar se o sistema está avançando ou apenas correndo para ficar no lugar. Sem o estoque atualizado da fila — desagregado por município, por especialidade, por tempo de espera —, não há como saber se o Amazonas está resolvendo o problema ou administrando sua aparência.

O que a investigação apurou aponta para uma arquitetura de comunicação que enfatiza produção e silencia sobre demanda. O governo sabe fazer cirurgias. O que não se sabe — porque os dados não são produzidos ou não são divulgados — é quantas pessoas ainda esperam, em que município, há quanto tempo, com qual gravidade. E enquanto esse número não existir publicamente, a fila continuará existindo na vida das pessoas — apenas não nas estatísticas.

Na oncologia, onde a espera tem consequências fatais em prazos curtos, essa opacidade não é apenas uma falha de gestão. É uma forma de invisibilidade que mata. A fila que o Amazonas não conta é exatamente aquela onde o custo da demora é mais alto — e o retorno eleitoral de divulgar o número, mais baixo. Contar essa fila seria o primeiro ato honesto de quem quer, de verdade, zerá-la.

 

Os pré-candidatos Omar Aziz, Roberto Cidade, David Almeida e Maria do Carmo Seffair são convidados publicamente a responder. O Nafesta aguarda a posição de cada um sobre a fila cirúrgica do Amazonas. Respostas de até 500 caracteres podem ser enviadas para publicação ou registradas diretamente nos comentários em www.nafesta.com.br. Esta matéria permanece aberta.

 

 

...Esse trabalho tem endereço, tem método e está disponível — com contrato (CNPJ) e nota fiscal.Adão Gomes — Jornalista Profissional (MTB-AM 000191). Analista de inteligência política, econômica e estratégica. MBA em Inteligência Artificial para Organizações Contemporâneas — La Salle. Pós-graduando em Direito Empresarial — UniAnchieta/SP.Fundador do portal de notícias mais antigo do Amazonas (desde 2000). Especialista em Análise de Risco Estratégico e Blindagem de Dados. 26 anos · +83.5 mil matérias publicadas, com zero processos judiciais, cujos textos são de sua autoria, utilizando apoio das fontes pesquisadas com as plataformas de IA. "A tecnologia executa, o autor conduz." Protocolo AZR-BRS v2.0 AZR Híbrido. www.nafesta.com.brEsta análise consultou bases institucionais verificáveis: SES-AM, Monitor de Cirurgias/Ministério da Saúde, MPAM, DPE-AM, Cosems-AM, A Crítica, Portal do Holanda, Amazonas Atual e fontes primárias de transparência pública. Protocolo AZR-BRS v2.0 · Strategic Foresight & Cognitive Governance · SNCPI Ativo. www.nafesta.com.br

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Manaus - AM
Sobre o município
Manaus é um município brasileiro, capital do estado do Amazonas e principal centro urbano, financeiro e industrial da Região Norte do Brasil. É a cidade mais populosa do Amazonas e de toda a Amazônia com mais de 2,1 milhões de habitantes e um dos maiores destinos turísticos no Brasil.
Ver notícias
Manaus, AM
26°
Tempo nublado

Mín. 22° Máx. 30°

28° Sensação
1.76km/h Vento
78% Umidade
100% (6.92mm) Chance de chuva
07h01 Nascer do sol
18h58 Pôr do sol
Sex 30° 23°
Sáb 31° 23°
Dom 32° 23°
Seg 30° 23°
Ter 29° 23°
Atualizado às 19h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,10 -1,64%
Euro
R$ 5,91 -1,20%
Peso Argentino
R$ 0,00 -2,94%
Bitcoin
R$ 342,434,26 +2,97%
Ibovespa
171,497,23 pts 1.71%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade