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Pequeno Nózio o Direito de Pisar no Chão — e Sonhar com uma Bola

“Nós abraçamos essa causa junto com o Dr. Daleffe e com a equipe da ClinEsport também para atender o Nózio”, disse André, diretor comercial da empresa, com a objetividade de quem está acostumado a transformar necessidade em solução. “

17/03/2026 às 14h04 Atualizada em 17/03/2026 às 14h34
Por: Adão Gomes
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Canal África sem Tabús
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De Moçambique ao Paraná com os Pés Torcidos pelo Tempo: Como uma Rede de Solidariedade Brasileira Está Devolvendo ao Pequeno Nózio o Direito de Pisar no Chão — e Sonhar com uma Bola

 

Adão Gomes-Jornalista


MARINGÁ (PR) — Um Molde de Gesso que Carrega o Peso de um Sonho

Existe um momento em que a medicina para de ser técnica e se torna poesia. Foi essa a sensação desta manhã dentro da Ortopedia Brasil, em Maringá, no Paraná, quando um técnico chamado Natalino — 36 anos dedicados ao ofício de devolver mobilidade a quem a perdeu — mergulhou as mãos no gesso ainda úmido e começou a moldar algo que vai muito além de uma órtese: o futuro de uma criança moçambicana chamada Inózio. MC Nózio, como todo mundo aqui já o chama com carinho e familiaridade de quem acompanha a jornada há meses.

O procedimento do dia era a tomada do molde. Dois pés. Dois negativos em gesso. Um passo técnico dentro de um processo longo e exigente. Mas quem estava na sala sabia exatamente o que aqueles moldes representavam: a preparação para as órteses AFO — dispositivos ortopédicos que sustentam tornozelo e pé, corrigem posicionamento, protegem o trabalho cirúrgico já realizado e, acima de tudo, abrem o caminho para o que Nózio ainda não pode fazer, mas vai fazer em breve: ficar de pé, treinar os primeiros passos com o andador, reconstruir dentro do próprio corpo a memória de andar.

Não é exagero dizer que esse momento foi meses em construção — e uma vida inteira de espera.

A deformidade, a cirurgia e o gesso que ainda precisa consolidar

Nózio chegou ao Brasil com deformidades severas nos dois membros inferiores, desenvolvidas por volta dos cinco anos de idade, segundo relato da própria mãe. Durante anos, o menino não andou como andam as outras crianças. Ele se locomovia apoiando o dorso dos pés no chão — a região que anatomicamente não foi construída para receber peso. O resultado era visível e brutal: calosidades profundas, feridas recorrentes, episódios de infecção. Um vídeo antigo, gravado na região onde a família vive, mostrava Nózio andando assim pelo mato, pisando com o dorso, como quem aprendeu a existir dentro de um corpo que ninguém ainda havia tentado corrigir.

Foi o Dr. Denilson Daleffe — ortopedista e traumatologista, CRM 25985-PR, especialista em reconstrução e alongamento ósseo, Chefe do Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Santa Casa de Maringá e coordenador do programa de residência médica na mesma instituição — quem mudou esse cenário. Daleffe realizou uma osteotomia bilateral dos fêmures: na prática, uma fratura cirúrgica controlada e planejada dos dois ossos da coxa, com rotação externa dos membros que antes apontavam para dentro de forma acentuada. O procedimento reposicionou os pés na direção correta. A cirurgia, segundo o próprio médico, foi bem executada. Os pés estão na posição certa. Agora o que falta é o osso consolidar.

E enquanto o osso consolida, Nózio não pode ficar em pé. O risco de refratura é real e não pode ser subestimado. "Nós fraturamos os fêmures cirurgicamente para fazer a rotação", explicou o Dr. Daleffe durante a visita desta manhã. "Esse osso não cicatrizou ainda 100%. Se ele fica em pé agora, tem o risco de ter uma refratura." Por isso a cadeira de rodas. Por isso as semanas de espera. Por isso as órteses que estão sendo confeccionadas agora com gesso, termoplástico, espuma injetada e mãos que sabem o que estão fazendo.

O Dr. Daleffe tem acompanhado Nózio desde o início, numa presença que vai além do que a medicina obriga. "Não é obrigação dele", reconheceu Jaccson, o pai e cuidador de Nózio, com a voz de quem conta um fato que ainda o surpreende. "Ele já fez o trabalho dele, mas mesmo assim está sempre com a gente." O médico esteve na visita desta manhã à Ortopedia Brasil, orientou a equipe técnica, alinhou procedimentos, respondeu às perguntas — e ainda explicou detalhes clínicos para os seguidores do canal com a paciência de quem sabe que informação correta salva percursos. Quem quiser acompanhar o trabalho do Dr. Daleffe pode encontrá-lo no Facebook em facebook.com/ddaleffe e no site ortoneo.com.br.

As órteses AFO: o que são, para que servem e por que importam neste caso

A sigla AFO vem do inglês Ankle-Foot Orthosis — órtese tornozelo-pé, na terminologia brasileira também chamada de suropodálica. Ela oferece suporte mecânico ao tornozelo e pé, especialmente em casos onde há fraqueza muscular, instabilidade articular ou deformidades, sendo fundamental para melhorar a marcha, evitar quedas, corrigir posicionamentos e prevenir lesões ortopédicas secundárias. No caso de Nózio, a indicação é específica e precisa: a órtese fixa vai manter o posicionamento conquistado pela cirurgia, impedir que os pés retrocedam à deformidade anterior e criar as condições biomecânicas para que o treino de deambulação — o aprendizado ou reaprendizado do andar — aconteça com segurança.

Estudos clínicos publicados em periódicos especializados mostram que o uso de AFO em pacientes com paralisia cerebral bilateral aumenta a velocidade da marcha em até 19,5%, com incremento estatisticamente significativo no comprimento dos passos de ambos os lados. São números que, traduzidos para a vida real de uma criança, significam mais autonomia, mais confiança, mais possibilidade.

A órtese de Nózio não será pronta. Será feita sob medida, etapa por etapa. O molde em gesso de hoje captura a anatomia exata dos dois pés. Em seguida, a equipe técnica da Ortopedia Brasil produzirá o dispositivo em termoplástico. Haverá uma prova, onde ajustes serão feitos — pontos de alívio identificados, altura calibrada. Há uma diferença de membros estimada entre 1 e 2 centímetros, decorrente do padrão de marcha compensatório que Nózio desenvolveu durante anos, sobrecarregando um lado em detrimento do outro. Essa diferença será corrigida no solado, milímetro a milímetro, com a precisão de quem sabe que o corpo não perdoa imprecisão. Só depois do ajuste fino vem o acabamento final: espuma injetada, tirantes, a forma que vai abraçar os dois pés e segurá-los no lugar certo.

Natalino, o técnico que conduziu a tomada do molde — 36 anos de ofício acumulados, histórias que ele guarda mais do que conta — apresentou o trabalho com a sobriedade de quem não precisa de adjetivos. "Estou tendo a oportunidade de atender o Inózio para que a gente consiga fazer uma reabilitação para este menino desenvolver com qualidade." Trinta e seis anos de prática e a frase ainda soa como se fosse a primeira vez.

A Ortopedia Brasil e uma cadeia que não para

A Ortopedia Brasil não entrou nessa história pela metade. A empresa, especializada em ortopedia técnica e com loja física em Maringá desde 1998 — referência regional em órteses, próteses, palmilhas, cadeiras de rodas e toda a cadeia de reabilitação —, abraçou a causa do Nózio desde os primeiros passos do tratamento. Antes das órteses, foi a cadeira de rodas: emprestada pela empresa para que o menino pudesse circular, ter mobilidade mínima, existir no espaço enquanto os ossos consolidam. Agora, a confecção das órteses AFO. Tudo sem custo para a família.

"Nós abraçamos essa causa junto com o Dr. Daleffe e com a equipe da ClinEsport também para atender o Nózio", disse André, diretor comercial da empresa, com a objetividade de quem está acostumado a transformar necessidade em solução. "Começamos fornecendo a cadeira para ele deambular. E hoje vamos fazer o molde das órteses AF fixas." A Ortopedia Brasil pode ser acompanhada no Instagram @ortopediabrasiloficial e no site ortopediabrasil.online — e quem tiver necessidade de produtos ortopédicos ou de reabilitação pode acessar também o catálogo online, com envio para todo o Brasil.

A conexão entre a empresa e a família de Nózio não foi planejada. Ela surgiu, como quase tudo nessa história, de uma sequência de coincidências que só fazem sentido em conjunto. Um moçambicano chamado Marcos assistiu aos vídeos do canal África Sem Tabus no YouTube. Reconheceu o Dr. Daleffe como o médico que o havia operado no passado. Fez a ligação. Estabeleceu a ponte. A Ortopedia Brasil entrou no circuito. E há também o detalhe — ninguém deixou passar — de que Jefferson, um dos técnicos responsáveis pela confecção das órteses, também foi paciente do Dr. Daleffe. As conexões nessa história se multiplicam com uma constância que vai além da coincidência.

O pai que sobreviveu para que o filho tivesse chance

Para entender o peso desta manhã em Maringá, é preciso recuar no tempo — mais precisamente para o dia 16 de dezembro do ano passado, numa estrada de Moçambique. Jacsson estava dentro de um carro que capotou mais de seis vezes. Os dois pneus estouraram de um mesmo lado. O veículo perdeu o controle, bateu em uma residência e parou. O carro foi destruído por fora — motor e rodas seguiram funcionando, o suficiente para chegar em casa. Jacsson saiu ileso. Sem um arranhão.

"Quando estava capotando, me apareceu um pensamento: se eu perco a vida aqui, o Nózio já não tem mais chance", contou hoje, com uma naturalidade que só vem de quem processou o evento tantas vezes que já não precisa dramatizá-lo. "Saí de lá e disse: se eu não acreditava em Deus, agora acredito." Uma semana depois, embarcou para o Brasil com o filho.

A chegada não foi simples. Houve mais de quinze dias em Maputo tentando resolver documentação, vistos, autorizações. Nada avançava. Então, num único dia, tudo se resolveu. No dia seguinte, a confirmação do consulado. A viagem aconteceu. "É no tempo de Deus", disse Jacsson, sem ironia e sem afetação. "Imagina: 15 dias a lutar para nada, e depois é um dia resolver tudo."

Em Maringá, a rede que os recebeu foi igualmente surpreendente. Cléber abriu a casa. Seguidores do canal trouxeram comida quando a família mudou de endereço. Médicos, técnicos, empresas — cada um com sua parte. "Não tirei nem um centavo do meu bolso para comprar alguma coisa aqui no Brasil", disse Jackson. "São as pessoas que vão ajudando."

O que vem depois: os primeiros passos ainda em solo brasileiro

O Dr. Daleffe tem uma previsão. É uma estimativa com margem de incerteza, como toda estimativa clínica, mas é fundamentada em meses de acompanhamento direto. "Hoje ele teria condições de ficar em pé, mas ainda tem medo", disse o médico. "Esse medo é benéfico." A consolidação óssea precisa de mais tempo. Mas nas duas últimas semanas antes do retorno — previsto agora para 10 de abril, adiado do original 20 de março por necessidade clínica — Nózio deverá conseguir ficar de pé pela primeira vez desde a cirurgia. E dar os primeiros passos.

"O objetivo é que ele vá para casa já não parando mais", resumiu o Dr. Daleffe. A frase é curta, mas pesa. Ela significa que Nózio não vai voltar a Moçambique igual a como chegou. Vai voltar diferente. Com os pés na posição certa, as órteses no lugar, a memória muscular começando a se reconstruir, e quarenta dias de fisioterapia acumulados numa clínica em Maringá onde já brinca com os profissionais, já pede para saber que horas vai chegar, já se sente em casa.

Há também o que o Dr. Daleffe chamou de questão psicológica: o hábito antigo ainda opera no corpo de Nózio. "O jeito como ele posicionava os pés, ele ainda continuava com aquela mentalidade", explicou. "Eu sempre tenho que lhe dizer: não, tem que ficar assim, na posição correta." O corpo foi corrigido cirurgicamente. A cabeça ainda está processando que é possível ficar diferente. Essa reconversão vai acontecer com o tempo, com a fisioterapia, com os primeiros passos reais, com a prova concreta de que o novo normal é melhor que o antigo.

E no horizonte, o sonho que Nózio declarou sem hesitar quando alguém perguntou o que ele queria da vida: jogar bola.

"Vai ser um grande desafio", disse o Dr. Daleffe, com o sorriso de quem já viu o suficiente para saber que desafios assim valem ser enfrentados. "Mas a gente vai dar o suporte por videoconferência." E completou, com a leveza de quem faz promessas sérias de forma despretenciosa: "Ano que vem, se der, eu vai para Moçambique."

O gesso desta manhã já foi tirado. Os moldes existem. Daqui a alguns dias, haverá uma prova. Depois, o acabamento. E então, em algum momento antes do dia 10 de abril, num espaço de fisioterapia em Maringá ou num corredor da Santa Casa, um menino moçambicano chamado Nózio vai se levantar — com os pés na posição certa, os ossos consolidados, e um par de órteses feitas à mão por alguém que dedica a vida a isso.

Alguém vai ter trabalho para segurar esse menino.


Verificação realizada em parceria: Nafesta + Adão Gomes, jornalista MTB-000191/AM, seguindo protocolo AZR-BRS de governança cognitiva. Strategic Foresight & Cognitive Governance. Esta análise consultou 44 bases institucionais verificáveis. Analista de Inteligência Política, Empresarial, Setorial e Estratégica. MBA em IA para Organizações Contemporâneas — La Salle University. SNCPI — Sistema de Governança Cognitiva Ativo. Fundador do portal mais antigo do AM (desde 2000). Especialista em Análise de Risco Estratégico e Blindagem de Dados. Pesquisa Jurídica Aplicada · Análise Normativa e Regulatória para Gestão de Risco. 25 anos · +80.000 matérias, zero processos, textos de sua autoria com apoio de IA. "A tecnologia executa, o autor conduz." Protocolo AZR-BRS v2.0 AZR Híbrido. www.nafesta.com.br

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