
ANÁLISE POLÍTICA-ESTRATÉGICA
O Guerreiro e a Tempestade: David Almeida invoca Ajuricaba, rompe alianças e enfrenta a Operação Erga Omnes rumo ao Governo do Amazonas
Prefeito de Manaus anuncia pré-candidatura em coletiva histórica, evoca o símbolo máximo da resistência indígena amazonense e, nas entrelinhas, lança a tese que pode definir 2026: o Amazonas deve ser governado por filhos da terra — não por convidados.
Na manhã de 23 de fevereiro de 2026, o Comfort Hotel de Manaus foi o cenário de um ato que, nos próximos meses, será lembrado como o estopim de uma das disputas políticas mais intensas da história recente do Amazonas. O prefeito David Almeida, com a voz firme de quem escolheu o confronto em vez da recuada, anunciou sua pré-candidatura ao Governo do Estado, atacou a Polícia Civil, acusou o senador Omar Aziz de intimidação, implicou o vice-governador Tadeu de Souza no caso da agência de viagens investigada e encerrou seu discurso evocando um nome que ecoa nas margens de todo rio amazônico: Ajuricaba.
"Ajuricaba era um guerreiro", disse o prefeito. Três palavras simples. Uma declaração de guerra simbólica e política de proporções que ainda não podem ser inteiramente medidas. Porque Ajuricaba não foi apenas um cacique Manaó do século XVIII que resistiu à colonização portuguesa até a morte — Ajuricaba é o espelho no qual o Amazonas se olha quando precisa lembrar quem é. E ao invocar esse nome, David Almeida não estava apenas fazendo retórica. Estava, nas entrelinhas, construindo a fundação ideológica de sua campanha: o governo do Amazonas deve ser exercido por um amazonense — não por convidados.
A TESE QUE NÃO FOI DITA — MAS FOI ENTENDIDA POR TODOS
Em nenhum momento da coletiva David Almeida disse explicitamente que Omar Aziz, Wilson Lima ou Eduardo Braga "não são daqui". Não precisou. O discurso político brasileiro tem suas cifras e seus códigos, e a figura de Ajuricaba — o guerreiro que preferiu se atar com correntes e se lançar ao rio Negro a se render aos colonizadores portugueses — carrega em si toda a mensagem necessária.
Aziz nasceu em São Paulo. Lima nasceu em Santarém, no Pará, mudou-se para Manaus em 2006 para trabalhar como jornalista e construiu sua trajetória política no Amazonas como um forasteiro que se tornou governador — honrado com o título de Cidadão Amazonense pela Assembleia Legislativa em 2023, mas jamais filho da terra por nascimento. Braga migrou do Pará, mas sua identidade pública é a de um articulador nacional. Nenhum deles é amazonense de nascimento ou de identidade cultural enraizada nos rios e na floresta desde a infância. David Almeida, nascido e criado em Manaus, compreendeu que em um estado onde a distância geográfica é medida em dias de barco e onde a identidade ribeirinha ainda é visceral, essa distinção pode ser decisiva nas urnas. Ao mencionar sua disposição de "percorrer os rios", de governar para o interior que sente o abandono do Estado como uma ferida aberta, Almeida estava apontando para essa diferença sem jamais pronunciá-la com palavras diretas. Era Ajuricaba falando — e os presentes entenderam.
A OPERAÇÃO ERGA OMNES E O ERRO DE NOMENCLATURA
O nome que mudou — e por quê isso importa
Antes de qualquer análise política é necessário corrigir um fato que circulou equivocadamente nos bastidores políticos e em materiais internos de assessoria: a ação policial deflagrada pela Polícia Civil do Amazonas no dia 20 de fevereiro de 2026 chama-se Operação Erga Omnes — e não "Operação Helga", como foi denominada em pelo menos um documento de análise interna da gestão municipal. A verificação cruzada nos portais Folha do Estado, G1 Amazonas, Radar Amazônico, Revista Cenarium e Poder360 confirma de forma unívoca a denominação oficial. Não se trata de erro menor: o nome escolhido pelos investigadores é uma declaração em si. "Erga Omnes" é uma expressão latina do direito que significa "válido para todos", utilizada quando uma decisão judicial ou norma produz efeitos não apenas entre as partes envolvidas, mas em relação a toda a sociedade. Ao nomear a operação assim, a Polícia Civil do Amazonas sinalizou que nenhum cargo, nenhuma função e nenhuma aliança política protege ninguém do alcance da lei.
A operação não nasceu de improviso eleitoral, como a defesa de Almeida sugere. Seu ponto de origem está em agosto de 2025, quando policiais militares flagraram a transferência de entorpecentes entre lanchas e um veículo no bairro Educandos, Zona Sul de Manaus. A apreensão foi expressiva: 523 quilos de maconha do tipo skunk, sete fuzis de uso restrito e duas lanchas. A prisão de um dos suspeitos levou os investigadores do 24º Distrito Integrado de Polícia ao nome de Allan Kleber Bezerra Lima, identificado como o chefe da logística da organização. Seis meses de investigação financeira revelaram que a rede movimentou entre R$ 70 milhões e R$ 73,1 milhões entre 2018 e 2025 — recursos oriundos do tráfico de drogas com ramificações nos estados do Pará, Ceará, Piauí, Maranhão e Minas Gerais.
ANABELA FREITAS, A REVOAR TURISMO E OS R$ 1,35 MILHÃO SEM LASTRO
O nome que transformou uma investigação de tráfico em uma crise política de primeira grandeza é o de Anabela Cardoso Freitas. Servidora de carreira da Polícia Civil do Amazonas, ela estava cedida à Prefeitura de Manaus, onde exercia a função de Coordenadora do Gabinete Pessoal do prefeito David Almeida — cargo de altíssima confiança, responsável pelo acesso direto ao chefe do Executivo municipal.
Os relatórios de inteligência financeira do COAF (RIF 132265) listam Anabela como "Principal Envolvida" em uma transferência de R$ 1.351.942,00 para a conta de Alcir Queiroga Teixeira Junior, proprietário da A.K. Agência de Viagens e Operadora de Turismo Ltda., conhecida como Revoar Turismo. A investigação policial classificou a movimentação como atípica e incompatível com o perfil de renda declarado da servidora. O ponto central da acusação: varreduras em cartórios de Manaus não encontraram nenhum registro de compra ou venda de imóvel que justificasse o valor transferido. A defesa de Anabela, conduzida pelo advogado San Barbosa, alega que a transação é referente à venda de um bem imóvel — mas sem a documentação cartorial que poderia sustentar essa versão, a tese permanece sem comprovação material.
Na coletiva, David Almeida tentou construir um cálculo alternativo de renda: somando pensões e salários acumulados, chegaria a um total mensal que tornaria a movimentação plausível. O argumento enfrenta, porém, um obstáculo prático: renda mensal, mesmo que elevada, não se transforma automaticamente em transferência única de 1,35 milhão de reais sem que haja um evento patrimonial específico que a explique — e é exatamente esse evento que os investigadores dizem não encontrar nos registros públicos.
A Revoar Turismo: a agência que não existia para o mercado
A Revoar Turismo merece escrutínio próprio. Diligências policiais no endereço registrado — Rua Bromélia, bairro Redenção — não encontraram estrutura física compatível com uma agência de viagens internacional. Consultas às malhas aéreas da GOL e LATAM apontaram ausência de emissão de bilhetes para o público geral entre 2021 e 2025. A empresa, na prática, não operava para clientes externos. Para um cliente específico, porém, ela funcionou: o prefeito David Almeida e a primeira-dama Izabelle Fontenelle utilizaram a agência para uma viagem ao Caribe durante o Carnaval. Almeida admitiu o uso do serviço e atribuiu a indicação ao vice-governador Tadeu de Souza — afirmação que joga Tadeu no centro de uma crise que ele não escolheu entrar.
A investigação agora tenta responder se a Revoar atuava como duto de lavagem de dinheiro da facção criminosa por meio do custeio de regalias para agentes públicos. O modelo seria simples e eficiente: em vez de transferir dinheiro diretamente para um servidor, a organização criminosa bancaria viagens, estadias e serviços de luxo por meio de empresas de fachada, criando uma camada de distância entre o crime e o beneficiário. Se essa tese se sustentar, a viagem ao Caribe deixa de ser um detalhe anedótico e se torna uma evidência material.
OMAR AZIZ, WILSON LIMA E O COLAPSO DAS ALIANÇAS
O senador que teria mostrado documentos — e agora é adversário
Na coletiva, David Almeida revelou um dado explosivo: o senador Omar Aziz teria exibido documentos da investigação a ele ainda em outubro de 2025, meses antes da operação. A alegação tem implicações graves em todas as direções. Se Aziz de fato teve acesso a documentos sigilosos da investigação naquela data, surgem perguntas inevitáveis: como obteve esses documentos? Qual era o propósito de exibi-los ao prefeito? A intenção era de alerta, de pressão política ou de uso estratégico de informação privilegiada?
Almeida foi além: disse sentir-se "intimidado e ameaçado" pelo senador. A resposta de Aziz chegou pelos bastidores e por portais próximos ao grupo político do senador: para ele, Almeida cometeu uma "traição política" ao romper o compromisso de apoio mútuo para 2026. Aziz foi peça central na liberação de emendas e recursos federais para Manaus durante a gestão Almeida — e enxerga agora o movimento do prefeito como um projeto de concentração pessoal de poder que descarta lealdades históricas quando elas deixam de ser convenientes. O rompimento é dado como definitivo. Aziz, que poderia ter sido um pilar do palanque de Almeida, transforma-se agora em um adversário com capacidade real de fragmentar apoios e isolar o prefeito em uma base estritamente municipalista.
Wilson Lima e o silêncio estratégico
O governador Wilson Lima adotou a postura oposta à de Almeida: silêncio estratégico. Enquanto o prefeito disparava em todas as direções, Lima deixou a Polícia Civil conduzir tecnicamente o caso sem declarações públicas. É um cálculo político compreensível. Lima enfrenta seu próprio desgaste — portais especializados noticiaram que ele é alvo de onze operações da Polícia Federal, o que torna qualquer declaração pública sobre investigações criminais um terreno minado. Ao se manter em silêncio, Lima permite que Almeida pareça o único pressionado pela Justiça, enquanto preserva o argumento de que a Polícia Civil age com independência institucional.
A menção de Almeida ao vice-governador Tadeu de Souza como o responsável pela indicação da Revoar Turismo é, na leitura dos analistas políticos, uma tentativa de criar "fogo amigo" dentro da estrutura do governo estadual. A lógica é direta: se a agência é criminosa e foi indicada por Tadeu, então a contaminação pelo crime organizado não está apenas na prefeitura — está também no Palácio Rio Negro. Tadeu, que já enfrentava questionamentos sobre sua posição nas eleições de 2026 e sobre seu papel na indicação para o Quinto Constitucional do TJAM, vê-se agora em uma posição particularmente delicada, arrastado para uma crise em que ele não é o protagonista mas pode ser a vítima colateral mais danificada.
O DELEGADO, A LIVE E A ACUSAÇÃO DE PREVARICAÇÃO
Uma das alegações mais graves da coletiva foi a acusação contra o delegado Marcelo Martins, titular do 24º DIP. Segundo Almeida, o delegado teria realizado uma transmissão ao vivo nas redes sociais às cinco da manhã do dia da operação — um comportamento que, se confirmado no horário e contexto descritos, seria um sinal de alerta para os alvos da investigação. A consequência direta, na narrativa de Almeida, teria sido a fuga de Allan Kleber Bezerra Lima, o suposto líder do esquema, que permanece foragido junto com outros oito suspeitos.
A Polícia Civil não confirmou nem desmentiu publicamente a alegação sobre a live. O que é factual é que Allan Kleber permanece em paradeiro desconhecido, o que mantém a operação em aberto e cria o risco constante de que novas revelações, a partir de possíveis prisões ou delações, alcancem pessoas ainda não mencionadas no processo. Portais investigativos já noticiaram que esposa, sogra e irmã do prefeito estariam no radar dos investigadores — informação que Almeida não confirmou mas também não desmentiu com documentação, limitando-se a classificá-la como parte da campanha de perseguição.
OS INDICADORES DE GESTÃO: O PILAR QUE RESISTE
Educação: de capital mediana a referência nacional
O contraponto que David Almeida apresentou às investigações foi sólido o suficiente para não ser descartado como retórica. Na educação, os números resistem ao escrutínio. Manaus saltou da 13ª para a 5ª posição entre as capitais brasileiras no IDEB para os anos finais do ensino fundamental e detém a melhor nota do índice entre as cidades com mais de dois milhões de habitantes. O avanço é documentado pelo Ministério da Educação e pelo Censo Escolar. As vagas em creches saltaram de 5.000 para 14.000, dado confirmado pela Secretaria Municipal de Educação (Semed), embora a demanda total estimada exija uma meta de 16.000 vagas até o fim de 2026. Outras 21.000 vagas de ensino em tempo integral foram expandidas, 361 escolas foram revitalizadas e 100% das salas de aula foram climatizadas — um dado de impacto especial em uma cidade onde a temperatura ultrapassa regularmente os 35 graus e onde o calor nas salas de aula era, historicamente, um fator de evasão escolar.
Saúde: cobertura que quase dobrou em cinco anos
Na saúde, o avanço é expressivo. Em janeiro de 2021, a cobertura da atenção básica em Manaus era de 47,24%, abaixo da média nacional. Dados auditáveis do sistema eGestor do Ministério da Saúde registram 80,1% em agosto de 2023 e 89,65% em abril de 2024. O número de 92% citado por Almeida na coletiva pode corresponder a uma medição interna de 2026 ainda não publicada em base federal — mas os dados auditados já colocavam Manaus em quarto lugar entre as capitais mais populosas do Brasil, atrás apenas de Belo Horizonte, Fortaleza e Rio de Janeiro. Em 2022, a capital amazonense foi a cidade da região Norte que mais investiu proporcionalmente em saúde, aplicando R$ 1,3 bilhão no setor.
A comparação com Alagoas merece contextualização. Almeida afirmou que o estado nordestino, com orçamento de R$ 22 bilhões, construiu dez hospitais e 17 UPAs — e usou isso para criticar a eficiência do Governo do Amazonas. O dado alagoano tem respaldo: Alagoas investiu R$ 3,3 bilhões apenas em saúde e assistência social em 2024, com superávit fiscal que viabilizou essas entregas. A comparação é politicamente válida, mas tem limites metodológicos: os desafios logísticos do Amazonas — com municípios acessíveis apenas por rios, sem estradas pavimentadas — elevam o custo de entrega de qualquer serviço público de forma incomparável ao território alagoano. A crítica à eficiência estadual é legítima; a equiparação direta dos contextos, hiperbólica.
O CRONOGRAMA DA CRISE E OS PRÓXIMOS MOVIMENTOS
O anúncio de que David Almeida renunciará até 4 de abril de 2026 para se dedicar integralmente à campanha impõe uma pressão de calendário que favorece a crise. O vice-prefeito Renato Júnior assumirá a máquina municipal, mas herdará uma Câmara Municipal onde o pedido de impeachment de Almeida — baseado na conexão com a Revoar Turismo — já começou a tramitar, apresentado pelo vereador Bessa. A municipalidade, portanto, não será uma base tranquila: será um campo de batalha paralelo.
A maior vulnerabilidade de David Almeida segue sendo a materialidade da investigação. A defesa tem duas opções: apresentar o lastro documental da suposta venda de imóvel que justificaria o R$ 1,35 milhão transferido por Anabela Freitas — o que encerraria o principal argumento da acusação — ou convencer a opinião pública de que a investigação é integralmente uma operação política. A segunda opção é mais difícil de sustentar diante de uma investigação que tem origem comprovadamente anterior ao ciclo eleitoral, com seis meses de trabalho documentado antes da deflagração. A tese da perseguição tem apelo emocional, mas esbarra nos fatos técnicos.
Por outro lado, o campo eleitoral aberto pela candidatura de Almeida é genuinamente fértil. Ele tem indicadores de gestão verificáveis, uma base popular construída em cinco anos de prefeitura e, agora, uma narrativa de coragem — o homem que não recua diante da pressão, o guerreiro que não se rende. É Ajuricaba, de novo. É o Amazonas afirmando que não se governa da varanda de um hotel de Brasília, nem por quem chegou de fora e ficou. Essa mensagem, dita nas entrelinhas, tem a força das coisas que não precisam ser explicadas porque já estão inscritas na alma de um povo.
CONCLUSÃO ESTRATÉGICA
A coletiva de 23 de fevereiro de 2026 foi, simultaneamente, uma declaração de candidatura, uma defesa jurídica pública, um ato de ruptura política e um manifesto de identidade regional. David Almeida apostou todas as fichas em uma estratégia de alto risco e alta recompensa: transformar uma investigação criminal em um plebiscito sobre gestão, identidade e pertencimento. Se conseguir apresentar as defesas documentais que a Justiça exige e se Allan Kleber permanecer foragido sem revelar conexões mais profundas com o núcleo político municipal, Almeida tem condições reais de chegar competitivo ao pleito de outubro. Se os próximos desdobramentos judiciais trouxerem novas evidências que sustentem a tese policial, o quadro muda radicalmente.
O que já não muda é o cenário político. Omar Aziz é agora um adversário. Wilson Lima mantém a névoa do silêncio. Tadeu de Souza está na berlinda. E o Amazonas, mais uma vez, vai decidir seu destino olhando para dentro — para os rios, para a floresta e para a memória de um guerreiro Manaó que, séculos atrás, escolheu a liberdade nas águas do rio Negro a qualquer forma de submissão.
Ajuricaba era um guerreiro. E David Almeida quer que o Amazonas lembre disso em outubro de 2026.
FONTES CONSULTADAS
G1 Amazonas · Radar Amazônico · Revista Cenarium · Folha do Estado · Poder360 · Portal Em Tempo · Prefeitura de Manaus · MEC/IDEB · Ministério da Saúde/eGestor · Governo de Alagoas · RealTime1 · TSE (dados biográficos Wilson Lima) · Wikipedia
ADÃO JOSÉ GOMES
Jornalista — MTB-AM 000191
Analista de Inteligência Política, Empresarial, Setorial e Estratégica
MBA em IA para Organizações Contemporâneas — La Salle University
SNCPI — Sistema de Governança Cognitiva Ativo
Fundador do portal de notícias mais antigo do Amazonas (desde 2000)
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