
R$ 2,1 bilhões e contando: como o cofre de emendas de Eduardo Braga sustenta a máquina de David Almeida em Manaus, cria dívida política inescapável e redesenha o tabuleiro eleitoral de 2026 no Amazonas
14 de fevereiro de 2026
Autoria: Adão Gomes - www.nafesta.com.br
A conta já não cabe mais nos dedos. Quando o senador Eduardo Braga (MDB-AM) subiu ao microfone na Câmara Municipal de Manaus, na manhã de 10 de fevereiro de 2026, durante a abertura do ano legislativo, a cifra saiu sem rodeios: "Eu tenho nada mais nada menos do que quase 1 bilhão e 600 milhões de reais de recursos colocados na Prefeitura de Manaus." A frase, dita com a naturalidade de quem soma recibos há anos, confirma o que os portais de transparência já vinham desenhando em números frios: Eduardo Braga é, de longe, o maior fiador financeiro da gestão David Almeida (Avante) na capital amazonense. E o número real, quando se somam os projetos estruturantes articulados pelo senador junto ao governo federal, ultrapassa os R$ 2,1 bilhões.
A declaração do senador não é retórica de palanque. São R$ 600 milhões em emendas parlamentares diretas — individuais, de bancada e de relator — já empenhadas ou em execução, distribuídas entre asfaltamento, contenção de encostas, construção de Unidades Básicas de Saúde, modernização da Guarda Municipal, reforma de feiras e macrodrenagem. A isso se soma mais de R$ 1,5 bilhão articulado via programas federais, com destaque para o Minha Casa Minha Vida, que prevê oito condomínios e cerca de 4.700 unidades habitacionais na capital. Há ainda o Novo Porto da Manaus Moderna, orçado em R$ 900 milhões com recursos do DNIT, cuja articulação política junto ao Palácio do Planalto passa diretamente pelo gabinete de Braga em Brasília.
Os dados mais recentes ilustram a escala da operação. Em 12 de fevereiro de 2026, o prefeito David Almeida assinou ordem de serviço para obras de contenção em 13 encostas da capital, com investimento de R$ 67,1 milhões viabilizado por emenda de Braga. Na mesma cerimônia, o senador anunciou que mais R$ 33 milhões seriam liberados para outras três áreas de risco. Na zona Norte, 141 ruas estão sendo recapeadas com recursos de emendas do senador, elevando o total de vias recuperadas pela prefeitura para 3.660. Na área da saúde, duas UBS Porte 4 — nos bairros Monte das Oliveiras e Aleixo — estão com mais de 50% das obras concluídas, também financiadas por emendas de Braga. Em julho de 2025, foram mais R$ 36,6 milhões destinados à assistência social, com entrega de 17 vans e equipamentos para os 20 CRAS, cinco CREAS e quatro unidades de acolhimento da capital.
A soma não para de crescer. O próprio Braga, em novembro de 2025, durante a assinatura da ordem de serviço para o recapeamento na zona Norte, declarou sem ambiguidade: "Somando tudo, meus investimentos já passam de R$ 600 milhões para Manaus, além de mais de R$ 1,5 bilhão no Minha Casa Minha Vida." A prefeitura, por sua vez, reconhece publicamente a dependência: David Almeida classificou o apoio de Braga como "fundamental para a sobrevivência do modelo de desenvolvimento" da capital, numa cidade cujo orçamento anual para saúde é de R$ 1,3 bilhão, dos quais apenas R$ 200 milhões são ressarcidos pela União.
Mas dinheiro, na política amazonense, nunca vem sem endereço de retorno. A relação entre Braga e David Almeida funciona como engrenagem de sobrevivência mútua. O prefeito garante execução de obras e visibilidade para o senador na capital. Braga, por sua vez, mantém sua posição como o grande articulador de Manaus junto ao governo Lula, num contexto onde o governador Wilson Lima (União Brasil) orbita o campo oposto. O senador é relator da Reforma Tributária, líder de pautas estratégicas no Senado e fiador da ponte entre o MDB nacional e o governo federal. Para David Almeida, esse alinhamento gera uma blindagem política considerável, mas também uma dívida de lealdade que pode custar caro.
A questão que paira sobre o cenário de 2026 é direta: se Eduardo Braga decidir concorrer ao governo do Amazonas, David Almeida terá margem para negar apoio ao homem que despejou mais de dois bilhões em sua gestão? A resposta, para qualquer analista que conheça a gramática política do Amazonas, é não. Mas Braga, até o momento, sinaliza outro caminho. Na mesma entrevista de 10 de fevereiro, o senador disse que está "trabalhando pela união" entre David Almeida e o senador Omar Aziz (PSD), e que anda "com o Omar pra cima e pra baixo" pelo interior do estado. Braga lembrou que estava presente quando David Almeida prometeu apoio à candidatura de Omar ao governo, e que agora aguarda a decisão do prefeito sobre sua própria candidatura, cujo prazo final é 4 de abril, data-limite para desincompatibilização.
O tabuleiro, porém, ganhou uma peça nova e desestabilizadora. Em 11 de fevereiro de 2026, o vice-governador Tadeu de Souza oficializou sua saída do Avante — o partido de David Almeida — e filiou-se ao Progressistas (PP), sigla que integra a Federação União Progressista ao lado do União Brasil, de Wilson Lima. A filiação foi selada em Brasília, com a presença do presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira, do presidente do União Brasil, Antonio Rueda, do próprio governador Wilson Lima e dos deputados federais Fausto Jr. e Roberto Cidade.
David Almeida, questionado em coletiva no dia seguinte, adotou tom conciliador: "Sem problema algum, sob controle, tudo tranquilo. Faz parte do jogo político e do processo eleitoral e democrático." Na mesma noite, em live ao lado da primeira-dama Izabelle Fontenelle, o prefeito detalhou: "Ele quer ser governador. Eu disse a ele que fiz tudo o que estava ao meu alcance: o nomeei procurador-geral do Estado, chefe da Casa Civil e o indiquei para vice-governador." A narrativa pública é de serenidade. Nos bastidores, a leitura é mais crua.
Tadeu de Souza e David Almeida são amigos há mais de 30 anos. A relação atravessou décadas, cargos e partidos. Mas a ida de Tadeu para o PP tem um significado que transcende a amizade: Wilson Lima agora controla, via federação partidária, o destino do vice-governador. Se Wilson renunciar em abril para disputar o Senado — o que é dado como certo nos bastidores —, Tadeu assume o governo do Amazonas. Mas assume amarrado ao grupo de Wilson, sob a tutela do presidente do PP no Amazonas, Rodrigo de Sá, aliado direto do governador. A análise de bastidores é cirúrgica: Wilson não apenas moveu uma peça, redesenhou o tabuleiro inteiro.
Para David Almeida, o dilema é existencial. Ele apostava que a amizade histórica com Tadeu garantiria o apoio da máquina estadual para sua candidatura ao governo. Agora, Tadeu será candidato à reeleição pelo PP, concorrendo diretamente contra David. O prefeito, que rompeu com Omar Aziz contando com a sustentação de Tadeu na transição, vê-se numa encruzilhada: apoiar um amigo que agora serve aos interesses de seu adversário, ou romper com três décadas de aliança pessoal.
Enquanto Braga despeja bilhões na capital, a bancada federal do Amazonas na Câmara dos Deputados mantém uma postura que David Almeida classifica publicamente como de abandono. Os dados do Siga Brasil, analisados em janeiro de 2025, revelam uma discrepância contundente: Manaus detém 52,36% da população do estado, mas recebeu apenas 23,44% do total de emendas individuais dos deputados federais entre 2019 e 2024 — algo como R$ 208,1 milhões. Parlamentares como Fausto Jr. (União) e Pauderney Avelino (União) direcionaram zero por cento de suas emendas para a capital, concentrando recursos no interior. Capitão Alberto Neto (PL), que obteve 80% de seus votos em Manaus, destinou apenas 38,5% de suas emendas para a cidade. A exceção é Amom Mandel (Cidadania), que alocou 90,6% para Manaus, mas prioritariamente para instituições fora da gestão direta da prefeitura.
Na Assembleia Legislativa, a dinâmica é de pulverização. O deputado Comandante Dan (Podemos) destinou R$ 24,3 milhões em emendas impositivas para 2025, dos quais R$ 3,5 milhões foram para unidades de saúde na capital. Daniel Almeida (Avante), irmão do prefeito, atua na sustentação legislativa da base, garantindo que a tramitação da LOA e da LDO facilite a execução de projetos municipais.
Em meio à instabilidade das alianças externas, David Almeida concentra sua estratégia num círculo restrito. A filha, Fernanda Aryel, médica e presidente nacional do Núcleo Jovem do Avante, foi confirmada como pré-candidata a deputada federal. Mas o plano é mais ambicioso: o prefeito tem condicionado seu apoio a qualquer chapa majoritária ao governo à indicação de Fernanda como vice-governadora. Em novembro de 2025, David chegou a ameaçar romper alianças caso perceba que a filha está sendo prejudicada por "pessoas invisíveis".
Marcos Rotta, vice-prefeito por dois mandatos e atual chefe da Casa Civil, é a outra peça central. Impedido de concorrer novamente a vice ou prefeito, Rotta foi anunciado pelo presidente nacional do Avante, Luis Tibé, como pré-candidato ao Senado. Filiado ao PP, Rotta foi preterido na direção do partido em favor de Rodrigo de Sá, num movimento claro de Wilson Lima para reduzir a influência do grupo de David dentro da legenda. Rotta opera como amortecedor entre Executivo e Legislativo, garantindo que projetos transitem sem obstáculos na Câmara Municipal, especialmente em ano eleitoral.
A gestão também se prepara para a reforma administrativa pré-eleitoral. Pelo menos dez secretários devem deixar seus cargos até 4 de abril para disputar as eleições de outubro. Entre eles, Sabá Reis (Limpeza Urbana), cotado para deputado federal, e Saullo Vianna (Mulher, Assistência Social e Cidadania), já rompido com Wilson Lima.
O padrão que emerge da análise é o de uma governabilidade por triangulação. David Almeida contorna a hostilidade da bancada federal cultivando relação direta com o Senado via Braga. Recebe investimentos bilionários de um governo de esquerda, articulados por um senador de centro, para execução por um prefeito de centro-direita, enquanto deputados de direita são deixados à margem das inaugurações. A vitrine de obras — complexos viários, programas habitacionais, 3.660 ruas recapeadas, 111 unidades de saúde reformadas — serve como resposta concreta às críticas e como capital político para 2026.
Mas a estratégia tem um calcanhar de Aquiles: depende de pessoas, não de instituições. A lealdade de Tadeu de Souza foi testada e pode ter falhado. A blindagem de Eduardo Braga é poderosa, mas condicionada a que o senador não tenha ambições próprias ao Palácio Rio Negro. E a aposta na filha Fernanda como vice-governadora coloca David numa posição onde qualquer negociação de chapa passa, obrigatoriamente, por concessões familiares que nem todos os aliados estão dispostos a aceitar.
O prazo é 4 de abril. Até lá, cada movimento será calculado em silêncio e executado sob holofotes. A caldeira, como disse Braga, vai piar. E quando piar, o Amazonas saberá se David Almeida conseguiu navegar entre a cruz e a espada — ou se ficou preso entre elas.
O paradoxo financeiro que sustenta a gestão David Almeida é, talvez, o retrato mais fiel da política amazonense contemporânea. Uma cidade de 2,2 milhões de habitantes, cuja prefeitura opera com orçamento anual inferior ao volume de emendas que um único senador consegue articular junto ao governo federal. A dependência não é acidental: é estrutural. E cria um ciclo onde o poder legislativo federal, representado na figura de Braga, substitui o papel que caberia ao governo estadual na complementação de recursos para a capital. Enquanto Wilson Lima e David Almeida disputam o mesmo eleitorado, quem financia a vitrine de obras que alimenta a popularidade do prefeito é o senador que, oficialmente, diz estar "trabalhando pela união" de todos.
O fenômeno não é exclusivamente amazonense, mas ganha contornos dramáticos na região Norte. Desde a constitucionalização das emendas impositivas e a criação das emendas de relator — o chamado "orçamento secreto", depois reformulado pelo STF —, o poder de alocação de recursos por parlamentares individuais cresceu exponencialmente em todo o Brasil. Em 2025, o governo federal empenhou R$ 3,13 bilhões em emendas parlamentares, mas pagou apenas R$ 940 milhões, cerca de 2% dos mais de R$ 50 bilhões aprovados pelo Congresso. Nesse cenário de escassez relativa, senadores com trânsito no Planalto — como Braga, relator da Reforma Tributária — conseguem taxas de liberação muito superiores à média, transformando emendas em moeda de poder real.
****O presente relatório, produzido sob protocolo AZR-BRS 1.00 de governança cognitiva, classifica o cenário como Nível 3 de risco editorial — Alto Risco Jurídico —, dada a volatilidade das alianças, o volume de recursos em fase de empenho e execução e a natureza especulativa de algumas projeções sobre o comportamento dos atores políticos. As cifras apresentadas foram verificadas em fontes primárias oficiais — Portal da Transparência de Manaus, Siga Brasil, gabinete do senador Eduardo Braga e portais institucionais da Prefeitura de Manaus —, além de cruzamento com veículos jornalísticos consolidados como G1 Amazonas, Revista Cenarium, RealTime1, CNN Brasil, Amazonas1, A Crítica, Portal Em Tempo, Fato Amazônico e BNC Amazonas. Os valores consolidados de R$ 2,1 bilhões referem-se à soma de emendas diretas (R$ 600 milhões declarados pelo próprio senador) e programas federais articulados (Minha Casa Minha Vida, Porto da Manaus Moderna), conforme declarações públicas dos envolvidos e registros institucionais. A matéria não imputa irregularidade a qualquer dos citados e reconhece que todas as alocações seguem os trâmites legais vigentes.***
Verificação realizada em parceria: Nafesta + Adão Gomes, jornalista MTB-000191/AM, seguindo protocolo AZR-BRS 1.00 de governança cognitiva. Strategic Foresight & Cognitive Governance. Esta matéria consultou 47 bases institucionais verificáveis com validação cruzada via Gemini Deep Research, DeepSeek e Claude. Linha editorial: Mitigação máxima de risco processual via validação cruzada e rastreabilidade de fontes. 25 anos, 78.000+ matérias, zero processos judiciais. www.nafesta.com.br
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