
Autoria: Adão Gomes — www.nafesta.com.br (12/02/2026)
A maior crise fiscal do Brasil em três décadas está prestes a redesenhar o mapa político do Amazonas. Com a dívida pública federal projetada para atingir até R$ 10,3 trilhões ao final de 2026, a taxa Selic estacionada em 15% ao ano e um déficit nominal que consumiu mais de R$ 1 trilhão apenas em juros no último exercício, o próximo governador do estado herdará um cenário de asfixia financeira sem precedentes. A disputa eleitoral de outubro, que hoje mobiliza nomes como Omar Aziz, David Almeida, Tadeu de Souza e Capitão Alberto Neto, será decidida menos pelo carisma dos candidatos e mais pela capacidade técnica de quem souber navegar o estrangulamento fiscal que Brasília exportará para os 26 estados da federação a partir de 2027.
Os números são inequívocos e foram consolidados por esta reportagem a partir de fontes primárias do Tesouro Nacional, da Instituição Fiscal Independente do Senado, do Banco Central, da Fitch Ratings e da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda. A arrecadação federal atingiu 14,6% do PIB em 2025, o maior patamar desde 2006. Mesmo assim, o governo gastou mais do que arrecadou pelo terceiro ano consecutivo: o déficit primário foi de R$ 55 bilhões, e o rombo nominal, que inclui os juros da dívida, alcançou R$ 1 trilhão. A Fitch Ratings já classificou o Brasil como o país com o maior déficit fiscal da América Latina em 2026. Para o Amazonas, que depende estruturalmente de repasses federais e da sobrevivência do modelo Zona Franca de Manaus sob a transição tributária da Lei Complementar 214/2025, esses números não são abstração macroeconômica. São sentença de governabilidade.
O Plano Anual de Financiamento do Tesouro Nacional para 2026, divulgado em 29 de janeiro, projeta uma necessidade líquida de financiamento de R$ 1,677 trilhão apenas para rolar vencimentos da dívida interna. O estoque da Dívida Pública Federal encerrou 2025 em R$ 8,635 trilhões, um crescimento de 18% sobre o ano anterior, e deverá fechar 2026 entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões. Para dimensionar: o crescimento nominal da dívida pública tem sido consistentemente superior ao dobro do crescimento nominal do PIB. Pelo critério do Fundo Monetário Internacional, que inclui os títulos em carteira do Banco Central, a relação dívida/PIB já alcança 93%, tendo saltado 6 pontos percentuais em apenas doze meses. A diferença entre o critério brasileiro, de 79%, e o internacional, de 93%, atingiu 15 pontos percentuais, a maior em mais de duas décadas, o que revela uma monetização crescente da dívida pelo Banco Central.
O perfil dessa dívida agrava o diagnóstico de forma estrutural. Quase metade do estoque, 48,3%, está indexada à taxa Selic, proporção que retornou ao patamar de 2005 e que representa uma deterioração acentuada em relação ao melhor momento da série histórica, quando títulos prefixados chegaram a representar mais de 40% do estoque em meados de 2015. Cada ponto percentual de elevação na taxa básica acrescenta R$ 55 bilhões ao custo de carregamento da dívida, segundo estimativa do próprio Banco Central. Com a Selic em 15%, o mais alto patamar em quase duas décadas e entre as maiores taxas reais de juros do planeta, o governo federal está preso numa armadilha autoprovocada: gasta mais do que arrecada, emite dívida para cobrir o rombo, e paga juros cada vez mais altos sobre essa dívida porque o mercado exige prêmio de risco crescente para financiar um devedor que não sinaliza compromisso crível com a estabilização do endividamento.
O prazo médio da dívida prefixada caiu para apenas 2,2 anos, contra 5 a 10 anos em economias desenvolvidas como Estados Unidos, Alemanha, Japão e Reino Unido, onde mais de 85% da dívida soberana é prefixada. O prazo geral de quatro anos significa que o governo brasileiro precisa rolar trilhões a cada quadriênio, numa operação permanente de refinanciamento que consome recursos que deveriam financiar saúde, educação e infraestrutura. O gasto com juros em 2025 superou R$ 1,008 trilhão, equivalente a aproximadamente 8,5% a 9% de toda a riqueza produzida no país num único ano, valor superior ao orçamento inteiro do Ministério da Saúde. A XP Investimentos alertou que, sem reformas estruturais, o debate sobre dominância fiscal, cenário em que aumentar juros para conter inflação se torna contraproducente porque eleva o custo da dívida a níveis insustentáveis, será reacendido com força em 2026.
A transmissão dessa crise para o Amazonas opera por três canais simultâneos. O primeiro é a contração dos repasses federais. A Instituição Fiscal Independente do Senado alertou que a União "já não lidera os investimentos públicos e não tem condições de permanecer no papel de provedora de soluções fiscais para estados e municípios". O relatório da IFI de abril de 2025 estimou que, para estabilizar a dívida, o governo federal precisaria gerar um superávit primário de 2,1% do PIB, algo que nenhum analista sério considera viável no horizonte de 2026 ou 2027. O quarto déficit consecutivo é cenário convergente entre as principais projeções: a Secretaria de Política Econômica projeta rombo de R$ 22,91 bilhões em 2026, enquanto o mercado financeiro, pelo Prisma Fiscal do Ministério da Fazenda, estima R$ 72,4 bilhões. A IFI vai além e calcula R$ 128 bilhões. A divergência entre as três projeções já é, por si só, um indicador de descontrole.
O segundo canal é o custo do crédito. O Amazonas autorizou em 2025 uma operação de crédito interno de R$ 1,46 bilhão, o PROHABISCAP, destinado a infraestrutura e habitação. Com a Selic a 15% e sem previsão de queda abaixo de 12,25% em 2026, o custo de rolagem dessas operações será significativamente maior do que o planejado. Cada ponto de juros a mais sobre R$ 1,46 bilhão representa milhões adicionais de despesa financeira que serão subtraídos de investimentos em áreas críticas. A Sefaz-AM já declarou postura de "extrema cautela" para 2026, projetando crescimento apenas "moderado" da arrecadação, agravado pelos impactos climáticos das secas extremas que paralisam a navegação fluvial e afetam o transporte de insumos para o Polo Industrial de Manaus.
O terceiro canal, e o mais estrutural, é a transição tributária. A Lei Complementar 214/2025 preservou formalmente os incentivos da Zona Franca de Manaus até o prazo constitucional de 2073, mas a mecânica de substituição dos tributos antigos pelos novos IBS e CBS cria um período de incerteza operacional sem precedentes. A partir de janeiro de 2026, empresas do Polo Industrial já precisam destacar alíquotas simbólicas de 0,9% para CBS e 0,1% para IBS nos documentos fiscais, inaugurando a fase de testes do IVA dual brasileiro. Em 2027, o PIS e a Cofins serão extintos, e o IPI será reduzido a zero para todos os produtos exceto os fabricados na ZFM. Entre 2029 e 2032, ICMS e ISS serão progressivamente substituídos pelo IBS. O sistema definitivo entrará em vigor apenas em 2033. O diferencial competitivo de Manaus, historicamente sustentado por isenções de IPI, ICMS e PIS/Cofins, precisará ser integralmente recalculado sob um sistema novo de créditos presumidos de IBS e CBS, cuja operacionalização e eficácia real são desconhecidas. O artigo 2º da LC 214/2025 estabelece que o IBS e a CBS se regem pelo princípio da neutralidade, mas admite exceções constitucionais, entre as quais a ZFM. A pergunta que o mercado faz é direta: num cenário de asfixia fiscal federal, com a dívida caminhando para 88,6% do PIB em 2032 no cenário mais otimista do próprio governo, Brasília terá recursos e vontade política para honrar os fundos de compensação e os créditos presumidos prometidos à ZFM durante sete anos de transição simultânea?
É nesse ponto que o debate eleitoral amazonense revela sua maior fragilidade. Nenhum dos pré-candidatos ao governo apresentou, até a data desta publicação, um plano técnico detalhado para enfrentar o estrangulamento fiscal que se anuncia. Omar Aziz, que lidera as pesquisas com 51% das intenções de voto e concentra 68% de preferência no interior, posiciona-se como articulador capaz de destravar recursos em Brasília. Sua experiência como senador e ex-governador confere credibilidade a essa promessa, mas ela depende de uma premissa cada vez mais frágil: a de que Brasília terá recursos para distribuir. Ainda que o governo federal possa lançar mão de instrumentos extraordinários, como fundos de compensação ou créditos direcionados, o espaço fiscal disponível se mostra estruturalmente mais restrito do que no ciclo anterior. Com 92% dos gastos federais engessados e a dívida caminhando para 84% do PIB pelo critério oficial, a margem de manobra federal tende a se estreitar independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto após outubro.
David Almeida enfrenta um paradoxo ainda mais severo. Se por um lado controla a máquina da capital, onde se concentra mais da metade do eleitorado, por outro acumula sete procedimentos investigativos autorizados pelo Tribunal de Justiça do Amazonas, conforme registros públicos, envolvendo apurações relacionadas à gestão municipal, além de uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral no TRE-AM por abuso de poder político nas eleições de 2024. Seu rompimento com Omar Aziz e Eduardo Braga, interpretado como traição política por ambos os senadores, isolou-o de alianças fundamentais para um eventual segundo turno. A aproximação com o PDT nacional gerou acusações de incoerência ideológica. Num cenário de ajuste fiscal obrigatório, a combinação de vulnerabilidade jurídica e isolamento político compromete gravemente qualquer capacidade de articulação federal.
Tadeu de Souza, que assumirá o governo em abril de 2026 com a renúncia de Wilson Lima para disputar o Senado, possui a vantagem de controlar o orçamento estadual no ano eleitoral. Seu perfil técnico-jurídico, moldado em 25 anos como procurador do Estado e operador do Direito, é o mais alinhado às exigências de uma gestão de crise fiscal. Tadeu tem investido numa narrativa digital que resgata suas origens humildes em Manacapuru e sua trajetória de esforço educacional, buscando criar conexão emocional com o eleitorado do interior que transcenda a imagem de burocrata. Contudo, seu desafio permanece converter competência administrativa em voto popular. Capitão Alberto Neto, principal nome da direita bolsonarista no estado, lidera as intenções de voto para o Senado em Manaus com 48%, superando figuras tradicionais, o que reflete a resiliência do bolsonarismo na capital. Eleito por três anos consecutivos como um dos parlamentares mais eficientes, sua atuação focada em segurança pública e críticas à gestão fiscal federal ressoa com o eleitorado cansado das elites tradicionais. Porém, as diretrizes nacionais do PL priorizam sua candidatura ao Senado para formar bancada de oposição robusta no Congresso, e a ausência de um plano econômico estruturado para a ZFM enfraquece sua narrativa de renovação num cenário que exigirá muito mais do que retórica de combate à corrupção.
Eduardo Braga, peça central no tabuleiro como relator da Reforma Tributária no Senado, é o nome que mais conhece as entranhas da LC 214/2025 e suas implicações para a ZFM. Sua eventual candidatura ao Senado em chapa com Omar Aziz para o governo criaria o duo mais qualificado tecnicamente para defender os interesses do Amazonas em Brasília durante a transição tributária. Mas essa articulação depende de uma coesão política que o rompimento com David Almeida fragilizou. O comportamento eleitoral amazonense é historicamente estruturado por uma clivagem entre a capital, que concentra mais da metade do eleitorado e é permeável ao discurso de direita, e o interior, composto por 61 municípios onde a política de presença e as alianças com prefeitos são o principal ativo. Para qualquer candidato vencer o governo, é necessário obter ao menos 30% a 40% dos votos em Manaus e manter vantagem sólida no interior.
O cenário que se desenha para 2027, primeiro ano efetivo do próximo governador, é de ajuste fiscal obrigatório. A IFI do Senado projeta que a dívida bruta do governo geral poderá alcançar 100% do PIB em 2030 e 124,9% em 2034 se nenhuma medida estrutural for adotada. O Ministério da Fazenda admite que a dívida crescerá até 88,6% do PIB em 2032 mesmo no cenário otimista. O economista Marcus Pestana, diretor da IFI, foi categórico ao alertar que o arcabouço fiscal vigente "não está resultando no estancamento do crescimento da dívida pública brasileira". Para o Amazonas, isso significa que o próximo governador assumirá com menos transferências federais, crédito mais caro, transição tributária em curso e a obrigação de manter a competitividade de um parque industrial que emprega 500 mil pessoas direta e indiretamente, num ambiente de regras tributárias mutáveis. A BR-319, bandeira eleitoral de alto impacto que simboliza o isolamento de Manaus e o custo elevado de vida no interior, depende de recursos federais que competem com um orçamento de investimentos cada vez mais comprimido. As secas extremas, que a Sefaz-AM já classifica como risco à arrecadação, acrescentam uma dimensão climática ao desafio fiscal: rios secos paralisam navegação, encarecem logística e derrubam produção industrial.
A eleição de 2026 no Amazonas será, portanto, um teste de realidade fiscal sem precedentes na história política do estado. O eleitorado precisará distinguir entre promessas de articulação política e capacidade técnica de gestão de escassez. O tabuleiro mostra Omar Aziz com hegemonia no interior e diálogo federal, mas dependente de uma Brasília que gasta R$ 1 trilhão por ano apenas em juros e caminha para o quarto déficit consecutivo; David Almeida com máquina administrativa na capital, mas cercado por sete procedimentos investigativos no TJAM e politicamente isolado após o rompimento com os dois senadores do estado; Tadeu de Souza com perfil técnico e controle temporário da máquina estadual, mas sem base popular construída; Alberto Neto com voto ideológico consolidado na capital, mas sem projeto econômico regional que vá além da agenda de segurança pública; e Eduardo Braga como a peça técnica mais qualificada para a defesa da ZFM na transição tributária, mas condicionado à engenharia de alianças que o cenário de fragmentação dificulta. Todos os cenários permanecem abertos e sujeitos à dinâmica da campanha, mas a variável fiscal não se move por discurso eleitoral. O rombo fiscal federal não é variável de campanha. É a variável estrutural que determinará quem conseguirá governar de fato. O Brasil está trocando, nas palavras do diretor da IFI, "consumo presente por dívida futura". O Amazonas pagará essa conta com juros compostos. Quem compreender que o estado de 2027 será governado sob regime de austeridade forçada, e não de abundância distributiva, terá a chave para transformar crise em oportunidade de modernização de um modelo econômico que, apesar de todas as suas distorções, sustenta a ocupação produtiva da Amazônia Ocidental há quase seis décadas.
| Indicador Fiscal | Valor / Projeção 2026 | Fonte |
| Dívida Pública Federal (estoque 2025) | R$ 8,635 trilhões | Tesouro Nacional |
| Dívida Pública Federal (projeção 2026) | R$ 9,7 tri a R$ 10,3 tri | PAF 2026 / Tesouro |
| Dívida Bruta / PIB (critério brasileiro) | 83,6% a 84% | IFI / Min. Fazenda |
| Dívida Bruta / PIB (critério FMI) | 93% | Banco Central / FMI |
| Déficit Nominal 2025 (c/ juros) | R$ 1 trilhão | Banco Central |
| Déficit Primário 2025 | R$ 55 bilhões | SPE / Min. Fazenda |
| Projeção Déficit Primário 2026 (IFI) | R$ 128 bilhões | IFI / Senado |
| Taxa Selic (vigente) | 15% ao ano | Banco Central |
| Custo por 1 p.p. da Selic na dívida | R$ 55 bilhões / ano | Banco Central |
| Dívida indexada à Selic | 48,3% do estoque | Tesouro Nacional |
| Op. Crédito Amazonas (PROHABISCAP) | R$ 1,46 bilhão | Sefaz-AM |
| Vigência ZFM (constitucional) | Até 2073 | CF/88 — LC 214/2025 |
Fontes consultadas: Tesouro Nacional (PAF 2026, RAD 2025), Banco Central do Brasil (Estatísticas Fiscais), Instituição Fiscal Independente do Senado (RAF abril/2025 e outubro/2025), Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda (Balanço Macrofiscal 2025-2026), Fitch Ratings (Soberanos Américas, jan/2026), Prisma Fiscal (jan/2026), Sefaz-AM (Projeções 2026), Lei Complementar 214/2025, Pesquisa Census/RealTime1, TJAM, TRE-AM, TCE-AM.
Verificação realizada em parceria: Nafesta + Adão Gomes, jornalista MTB-000191/AM, seguindo protocolo AZR-BRS 1.00 de governança cognitiva. Strategic Foresight & Cognitive Governance. Esta matéria consultou 14 bases institucionais verificáveis. Linha editorial: Mitigação máxima de risco processual via validação cruzada e rastreabilidade de fontes. 25 anos, 78.000+ matérias, zero processos judiciais.
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