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Como a Pré-Candidatura de David Almeida ao Governo do Estado Redefine Alianças Históricas

O cenário político do Amazonas atravessa, neste início de 2026, uma reconfiguração sem precedentes. O anúncio do presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, em 6 de fevereiro, de que o prefeito de Manaus, David Almeida, “será candidato a governador

09/02/2026 às 12h15
Por: Adão Gomes
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Imagem Ilustrativa
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O Tabuleiro de 2026 no Amazonas: Como a Pré-Candidatura de David Almeida ao Governo do Estado Redefine Alianças Históricas, Expõe Contradições Documentadas e Desafia o Mapa Eleitoral em Ano Decisivo

Autoria: Adão Gomes - www.nafesta.com.br (09/02/2026)

O cenário político do Amazonas atravessa, neste início de 2026, uma reconfiguração sem precedentes. O anúncio do presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, em 6 de fevereiro, de que o prefeito de Manaus, David Almeida, "será candidato a governador com o PDT apoiando", transformou em declaração pública o que os bastidores já tratavam como certeza. O movimento, porém, levanta mais perguntas do que oferece respostas.

Este artigo não pretende acusar nem defender. Pretende mapear movimentos, identificar padrões, confrontar versões e oferecer ao leitor os elementos necessários para que ele próprio forme seu juízo. O princípio editorial que o sustenta é simples: na política contemporânea, o anúncio formal vem depois da engrenagem estar montada. Quem observa padrões, antecipa fatos.


A CRONOLOGIA DAS CONTRADIÇÕES

Para compreender o momento atual, é indispensável revisitar o que foi dito antes. Em agosto de 2024, durante sua convenção de reeleição à Prefeitura de Manaus, David Almeida declarou ao descer do palanque — onde acabara de discursar ao lado dos senadores Omar Aziz e Eduardo Braga — que só seria candidato a governador se não fosse reeleito. Reeleito, reafirmou em abril de 2025 que não disputaria o governo: "Eu vou fazer um apelo para que os donos de institutos de pesquisa não coloquem meu nome nas pesquisas. Eu não sou candidato." Em julho de 2025, voltou a negar publicamente a intenção de concorrer.

Em dezembro do mesmo ano, o discurso mudou radicalmente. David admitiu em entrevista à BandNews Amazônia que "antecipou demais" o apoio a Omar Aziz e decidiu "valorizar" seu próprio peso político. Em 19 de dezembro, foi mais explícito: afirmou que no "jogo político, o placar está dois a um" contra Omar, resgatando episódios de 2017 para justificar a ruptura. A aliança que ele próprio descrevia como inabalável — "quem está plantando discórdia vai quebrar a cara porque eu, Braga e Omar estaremos juntos" — se dissolveu em questão de semanas. Em meio a essa ruptura, um dado passou relativamente despercebido: o senador Eduardo Braga, descrito por fontes próximas ao grupo como um dos aliados mais fiéis de todo o arco político amazonense, organizou em 19 de dezembro uma confraternização no Atlético Rio Negro Clube com a presença de Omar Aziz, parlamentares e prefeitos do interior — sem David Almeida. A ausência do prefeito no evento do senador que, apenas dias antes, ele classificava como parceiro inabalável, é um registro factual que fala por si.

 

Braga, por sua vez, manteve até o último momento o discurso de conciliação: "Esperamos que estejamos todos juntos para fortalecer o Amazonas", declarou em 15 de dezembro. Eduardo Braga é, aliás, figura que merece atenção própria neste cenário. Ex-governador e ex-ministro de Minas e Energia, Braga carrega não apenas capital político, mas também uma das rivalidades mais persistentes do jornalismo amazonense: o embate de anos com o comunicador Ronaldo Tiradentes, da Rede Tiradentes. A disputa, que já gerou ações judiciais, liminares do TSE e condenações por danos morais, permanece ativa — e suas motivações profundas seguem sem explicação definitiva de nenhuma das partes. O registro não é gratuito: ilustra a complexidade do ecossistema político-midiático do Amazonas, onde as fronteiras entre jornalismo, poder e conflito pessoal são frequentemente tênues.

A fala de Lupi foi feita na presença de Fernanda Aryel — a mesma filha que, meses antes, havia sido indicada pelo pai como vice-governadora na chapa de Omar Aziz. A cronologia é reveladora. Em abril de 2025, David declarou: "Já tenho até o nome do vice, é a Aryel. Ela é minha coringa." Em agosto, reafirmou: "Trabalhamos o nome da Fernanda Aryel" para compor com Omar. Em setembro, Omar e Aryel dividiram palanque no Parque Amazonino Mendes, onde o senador disse: "Se mantenha firme, filha." Em novembro, David confirmou: "Ela é nosso nome." Três meses depois, em fevereiro de 2026, Fernanda Aryel estava no evento que lançou seu pai — não mais Omar — como candidato ao governo. E ela própria foi anunciada como pré-candidata a deputada federal, não mais vice-governadora.

O contraponto necessário: mudanças de posição são inerentes à política. A leitura de que houve "traição", adotada por alguns veículos, é uma interpretação possível, não a única. Outra leitura, igualmente legítima, é a de que a dinâmica de alianças se alterou por fatores objetivos — pressões judiciais, pesquisas desfavoráveis, reconfiguração de blocos partidários — e que o reposicionamento foi uma decisão estratégica racional. Cabe ao leitor ponderar qual narrativa os fatos sustentam com maior solidez.


A ENGRENAGEM PARTIDÁRIA: QUEM FALA QUANDO O CANDIDATO SE CALA

Um dos aspectos mais reveladores do episódio de 6 de fevereiro é a ausência do próprio David Almeida no evento que o lançou candidato. O prefeito, afastado por luto pela morte do filho David Benedito em janeiro de 2026, não compareceu à cerimônia na Assembleia Legislativa. Quem fez o anúncio foi Carlos Lupi. Quem representou o prefeito foi Fernanda Aryel. Quem engrossou o discurso de campanha foi o vice-prefeito Renato Júnior.

Estavam presentes o presidente nacional do Avante, Luís Tibé, que confirmou apoio à candidatura majoritária; o presidente da Câmara Municipal, David Reis; os deputados Daniel Almeida e Abdala Fraxe; e o chefe da Casa Civil, Marcos Rotta. O que se viu foi a formalização de uma candidatura sem que o candidato a formalizasse — uma "pré-campanha por procuração".

O contraponto: a ausência se deu em circunstância de luto genuíno. Atribuir significado exclusivamente político seria reducionista. Ao mesmo tempo, a engrenagem operou com precisão, o que sugere planejamento prévio.


A FAMÍLIA COMO EXTENSÃO POLÍTICA

A presença da família Almeida no tabuleiro político não é acidental. Fernanda Aryel, 25 anos, preside o Jovem Avante desde 2020 e foi anunciada em 9 de fevereiro como pré-candidata a deputada federal. O deputado estadual Daniel Almeida atua como articulador na Assembleia Legislativa e defensor público do irmão. Dulce Almeida, irmã do prefeito, ocupou a Secretaria Municipal de Educação até se tornar alvo de investigações sobre o uso de recursos do Fundeb.

A estratégia de utilizar o núcleo familiar como extensão do projeto político não é exclusividade de David Almeida nem do Amazonas. É um padrão recorrente na política brasileira. O que torna o caso específico é a amplitude: legislativo estadual (Daniel), base jovem e estrutura partidária (Fernanda Aryel) e controle de pasta administrativa estratégica (Dulce, na Semed).

O contraponto: a participação familiar em política é legítima e constitucional. Daniel foi eleito por voto popular. Fernanda Aryel construiu trajetória partidária. A questão não é a participação em si, mas o grau de concentração de poder — e se essa concentração serve ao interesse público ou primariamente ao projeto de grupo.


O CAMPO MINADO JURÍDICO

O flanco mais vulnerável da pré-candidatura não é eleitoral — é jurídico. O MPAM instaurou inquérito civil contra Dulce Almeida por suspeitas de repasse irregular de R$ 41,8 milhões do Fundeb para o Funserv (gestor da Manausmed). O MPF também investiga o caso. O TCE-AM determinou a suspensão de transferências de R$ 26 milhões. Paralelamente, a "Operação Entulho" da Polícia Federal apura pagamento de propinas envolvendo contratos de coleta de lixo, com menções a Dulce. O MPAM investiga ainda as férias do prefeito ao Caribe por possível custeio indevido. Segundo diversos veículos locais, são pelo menos sete inquéritos ativos.

O contraponto: inquérito não é condenação. A Prefeitura argumentou que os repasses foram medida emergencial para garantir saúde aos servidores. A solidez dessa justificativa depende de análise técnica ainda não concluída. O que se pode afirmar é que o volume de investigações simultâneas cria, objetivamente, incerteza jurídica que pode afetar a viabilidade eleitoral.


O DILEMA DE WILSON LIMA E A PEÇA TADEU DE SOUZA

O governador Wilson Lima enfrenta um dilema estratégico. Se renunciar até abril de 2026 para concorrer ao Senado, entrega o governo ao vice Tadeu de Souza, do Avante, aliado histórico de David Almeida. Se não renunciar, prejudica sua própria trajetória e pode fortalecer Omar Aziz.

A movimentação recente sinaliza reaproximação entre Wilson Lima e Tadeu. Na retomada dos trabalhos da Assembleia em fevereiro de 2026, os gestos de sintonia foram lidos como sinal político. A lógica é conhecida: Tadeu assume a máquina, governa por oito meses, e o grupo de David opera com prefeitura e governo simultaneamente — concentração inédita no Amazonas.

O contraponto: Tadeu de Souza possui trajetória própria como servidor de carreira com quase três décadas de experiência. Ele próprio sinalizou, em fevereiro de 2025, pretensão ao governo: "Não seria raro que eu me tornasse candidato a governador dentro de um contexto semelhante ao de 2022." A possibilidade de que Tadeu desenvolva projeto autônomo, distanciando-se do grupo de David, não pode ser descartada. A política amazonense já produziu rupturas entre aliados históricos — o próprio rompimento David-Omar é prova disso. Há ainda um dado pouco discutido: em julho de 2025, o deputado federal Pauderney Avelino denunciou que Tadeu vinha sendo "maltratado" pelo entorno do governador Wilson Lima — "de manhã, de tarde, de noite, de segunda a segunda" —, o que sugere que a relação entre governo e vice-governadoria é mais complexa do que as aparências sugerem.


OS NÚMEROS QUE DESAFIAM A NARRATIVA

Se a engrenagem política favorece David Almeida, os números eleitorais contam outra história. A pesquisa Perspectiva, de dezembro de 2025, com 2.500 eleitores e margem de erro de 2%, mostra Omar Aziz com 39% das intenções de voto contra 19% de David Almeida. A pesquisa Census, do mesmo mês, aponta 63% de desaprovação da gestão do prefeito em Manaus e 61% de eleitores que afirmam que "não votariam nele de jeito nenhum".

Ao longo de 2025, a trajetória foi de declínio para David: de empate em 28% com Omar em março para uma média de 22% no final do ano. No sentido inverso, Maria do Carmo Seffair, do PL, cresceu de 10% para 23%, tornando-se a força de maior crescimento relativo no período.

O contraponto: pesquisas são retratos de momento, não profecias. David Almeida foi eleito prefeito em 2020 virando votos no segundo turno. Em Manaus, uma pesquisa Projeta de dezembro mostrou empate técnico entre David (29,61%) e Omar (29,18%) na capital. A força do interior, onde Omar domina, pode ser contrabalançada pela máquina municipal. A eleição de outubro ainda está distante o suficiente para permitir reversões.


O QUE OBSERVAR NOS PRÓXIMOS MESES

O artigo encerra não com conclusão fechada, mas com as perguntas que o cenário impõe e que o jornalismo de qualidade deve manter sob vigilância permanente:

Primeiro, a decisão de Wilson Lima sobre o Senado — se renunciar, ativa a "superestrutura" Almeida-Tadeu. Segundo, o desfecho das investigações sobre o Fundeb e a Operação Entulho — uma denúncia formal pode inviabilizar juridicamente a candidatura. Terceiro, o comportamento de Eduardo Braga, cujo silêncio recente sobre a candidatura do prefeito ao governo é, em si, um dado político. Quarto, a capacidade de David Almeida de reverter a rejeição de 61%. Quinto, a reação do eleitorado do interior, onde o rompimento com Omar pode ter custo significativo. Sexto, o papel de Maria do Carmo Seffair, do PL, que pode fragmentar ainda mais o campo anti-Aziz. Sétimo, a dinâmica nacional e a distribuição de recursos e tempo de televisão na campanha amazonense.

Um dado adicional merece atenção: o falecimento do filho de David Almeida em janeiro de 2026 introduziu uma variável humana que transcende cálculos eleitorais. O luto é real e merece respeito. O efeito político dessa tragédia pessoal é um fator que analistas precisam considerar sem cinismo, mas também sem ingenuidade.

O Amazonas de 2026 está em movimento. As peças se deslocam no tabuleiro antes que as regras do jogo estejam plenamente definidas. Cabe ao eleitor — e ao jornalismo que o serve — acompanhar cada movimento com olhos abertos, memória longa e juízo próprio.

Nota do autor: Este artigo não carrega intenção pessoal contra qualquer dos atores mencionados. A análise é estritamente factual e apoiada em fontes públicas, declarações documentadas e dados de institutos de pesquisa. A independência editorial é condição inegociável para o exercício do jornalismo — e preservá-la é o que garante a continuidade de uma trajetória profissional de mais de duas décadas sem um único processo judicial. Que essa liberdade permaneça, porque ela não serve ao jornalista: serve ao leitor.

Verificação realizada em parceria: Nafesta + Adão Gomes, jornalista MTB-000191/AM, seguindo protocolo AZR-BRS 1.00 de governança cognitiva. Strategic Foresight & Cognitive Governance.

www.nafesta.com.br

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