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EDITORIAL DE DOMINGO
MANAUS DESBOTADA: A COR QUE FALTA NA CAPITAL DA AMAZÔNIA — ENQUANTO COARI RENASCE COM PINTURA, A METRÓPOLE SANGRA PELAS FACHADAS E ESPERA POR QUEM TENHA CORAGEM DE PINTAR A CIDADE ANTES DE PINTAR PROMESSAS
Adão Gomes- Jornalista
Há cidades que se apresentam ao mundo coloridas. Há cidades que se vestem de orgulho. E há Manaus — desbotada, manchada, esquecida nas suas fachadas que um dia foram belas e hoje gritam silenciosamente por dignidade.
Não é sobre estética. É sobre respeito. Não é sobre tinta. É sobre mensagem. Cada prédio público com pintura descascada diz ao cidadão: "você não importa". Cada escola centenária com manchas de umidade escorrendo pelas paredes históricas traduz: "sua memória não vale nada". Cada centro histórico transformado em vitrine da decadência é um outdoor involuntário da gestão pública que nunca chegou.
E Manaus sangra pelas fachadas.
O Ministério da Cultura reconheceu oficialmente em 2025: prédios históricos no Centro de Manaus estão em "estado crítico" com "riscos iminentes à integridade estrutural". O Mercado Adolpho Lisboa, tombado pelo IPHAN, agoniza. O Colégio Amazonense Dom Pedro II foi autuado por degradação grave. A Escola Barão do Rio Branco está na lista de imóveis sob risco. O Reservatório do Mocó — símbolo da belle époque amazônica — aguarda reforma que nunca começa.
São mais de 50 imóveis tombados federalmente. Dezenas de construções protegidas por decreto municipal. E quase todas compartilham a mesma sentença: abandono estético que corrói a estrutura, a memória e a autoestima de quem passa por elas todos os dias.
Mas aqui está o segredo que ninguém quer admitir: consertar uma cidade desbotada é mais barato do que parece — e mais poderoso politicamente do que qualquer outdoor de campanha.
A PSICOLOGIA DAS CORES QUE OS POLÍTICOS IGNORAM
Ciência não é opinião. Pesquisa não é teoria. E há 200 anos — desde Johann Wolfgang von Goethe em 1810 — sabemos que a cor afeta diretamente a saúde mental das pessoas.
Cidades cinzentas, desbotadas e manchadas provocam fadiga visual, estresse crônico e sensação de abandono. Cores vibrantes, equilibradas e bem aplicadas restauram a energia mental, reduzem ansiedade e aumentam o sentimento de pertencimento. Isso não é poesia. Isso é neurociência aplicada ao urbanismo.
Quando Isaac Newton descobriu o espectro de cores em 1672, ele não imaginava que três séculos depois arquitetos usariam essa ciência para transformar favelas em museus a céu aberto, avenidas cinzentas em rotas turísticas e bairros violentos em polos de economia criativa.
O azul transmite confiança, segurança e estabilidade. Por isso bancos e empresas de tecnologia o usam. O verde acalma, reduz stress e conecta com a natureza. Por isso hospitais pintam suas salas de espera com tons de verde-água. O vermelho energiza, mas em excesso agita. O amarelo ilumina e traz otimismo, mas precisa de equilíbrio para não cansar.
E Manaus? Manaus se apresenta ao turista como uma cidade sem cor, sem identidade, sem alma cromática. O visitante que vem ver a floresta é recebido por uma capital que parece ter desistido de si mesma.
COARI ENSINA: QUANDO O INTERIOR É MAIS INTELIGENTE QUE A CAPITAL
Enquanto Manaus debate orçamento para obras estruturais que nunca saem do papel, Coari — município do interior do Amazonas — já entendeu o recado.
Coari é hoje uma das cidades mais bem pintadas do Amazonas. Não por acaso, não por sorte, mas por decisão política consciente. As fachadas de prédios públicos, escolas, unidades de saúde e até casas populares ganharam cores que dialogam com a identidade ribeirinha. O impacto foi imediato: a população se sentiu respeitada. Os turistas começaram a fotografar a cidade. O comércio local percebeu aumento no fluxo de pessoas.
Coari provou que pintar não é luxo. Pintar é dignidade.
A lição é clara: se uma cidade do interior, com orçamento infinitamente menor que o da capital, consegue se reorganizar esteticamente e devolver autoestima à população, Manaus não tem desculpa. Manaus tem dinheiro. Manaus tem emendas parlamentares. Manaus tem empresas de tinta instaladas no Polo Industrial. Manaus tem tudo — menos vontade política.
E aqui mora a oportunidade histórica para quem souber enxergar.
A OPORTUNIDADE POLÍTICA QUE BATE À PORTA: OMAR AZIZ, DAVID ALMEIDA E O "EFEITO COR"
Estamos em 2026. Ano pré-eleitoral. E há uma janela de oportunidade aberta para quem quiser ser lembrado como o político que devolveu a cor — e a dignidade — a Manaus.
O governador Wilson Lima tem nas mãos uma bandeira que pode se tornar sua assinatura política. Um programa estadual batizado "Amazonas Colorido" ou "Manaus com Dignidade" custaria uma fração do orçamento de qualquer obra viária — e seria sentido imediatamente por cada cidadão que caminha pelas ruas. Não seria apenas estética. Seria mensagem. Seria carinho. Seria governo que chega onde o povo está: na calçada, na praça, na escola do filho, no posto de saúde da mãe.
Imagine o impacto emocional de uma mãe que sai de casa e vê a escola do filho pintada, limpa, com cores que transmitem cuidado. Imagine o comerciante que abre a porta do seu negócio e percebe que a rua inteira foi revitalizada. Imagine o turista que posta nas redes sociais: "Manaus está linda!". Isso não se compra com propaganda. Isso se constrói com ação.
Mas não é só o governador que pode abraçar essa causa.
Omar Aziz, senador com trânsito nacional e ambições para 2026, poderia articular emendas federais impositivas para um "Plano Nacional de Revitalização de Centros Históricos da Amazônia", começando por Manaus. Seria a ponte entre Brasília e a população que ele quer representar. Seria a prova de que política não é só discurso — é tinta na parede, cor na praça, dignidade na rua.
David Almeida, prefeito de Manaus e pré-candidato ao governo, tem uma carta na manga ainda mais poderosa: o controle direto sobre o centro histórico da cidade. O programa "Nosso Centro" já existe. O diagnóstico já foi feito. O IPHAN já mapeou os imóveis degradados. Falta apenas uma coisa: emendas parlamentares municipais direcionadas exclusivamente para pintar, revitalizar e devolver a Manaus o orgulho de olhar para si mesma.
A Lei Orçamentária Anual de Manaus para 2025 prevê R$ 10,5 bilhões. Foram aprovadas 225 emendas individuais no Bloco A e 31 emendas de bancada no Bloco B. Dessas centenas de emendas, quantas foram para pintura? Quantas foram para revitalização cromática? Quantas foram para devolver dignidade visual à população?
A resposta é constrangedora: quase nenhuma.
E aqui está a virada de jogo: quem fizer isso primeiro, ganha o coração do eleitor.
RECIFE, SALVADOR, RIO: O BRASIL QUE JÁ ENTENDEU
Enquanto Manaus debate, o Brasil age.
O Recife criou o programa "Recentro" em 2021, com vistorias sistemáticas, pintura de fachadas, iluminação cênica de LED e recuperação de calçadas. O resultado? Reocupação do centro histórico, aumento da segurança e revitalização comercial. Até as embarcações de pescadores artesanais foram incluídas no processo de pintura. O projeto foi finalista em prêmio nacional de valorização do patrimônio cultural do Ministério do Turismo.
Salvador implementou o "Cores da Cidade", articulando proprietários de imóveis degradados com investidores privados através de escritórios técnicos de mediação. A pintura não foi um fim em si mesma, mas um incentivo para a preservação integral do casario histórico. O Pelourinho renasceu.
O Rio de Janeiro pintou a Avenida Brasil inteira através do projeto "Cores do Brasil", revitalizando 4 terminais de BRT, 18 estações, 30 viadutos e 300 pilares com mais de 30 mil litros de tinta. A avenida que era símbolo de degradação virou "lugar de esperança", nas palavras dos próprios moradores. Mensagens de Gentileza foram pintadas nos muros. A cidade se reencontrou com sua identidade.
Curitiba pintou grandes painéis artísticos em "paredes cegas" que antes dominavam avenidas áridas. A paisagem virou percurso narrativo sobre a história da cidade.
Olinda criou o "Pinte Seu Patrimônio", usando mão de obra de apenados para pintar fachadas do Polígono Tombado com tinta à base de cal. Baixo custo, alto impacto social, prêmio do IPHAN (Prêmio Rodrigo Melo Franco 2019).
Nova Iguaçu revitalizou 4.000 metros quadrados de muros em 5 meses através do projeto "Arte Urbana", cobrindo pichações e publicidade irregular com grafites que contam a história local.
E Manaus? Manaus continua cinza.
A MATEMÁTICA DA DIGNIDADE: R$ 40 POR METRO QUADRADO
Aqui está o dado que nenhum político pode ignorar: pintar uma fachada externa custa entre R$ 35 e R$ 60 por metro quadrado, com média de R$ 50/m².
Uma escola pública de médio porte tem cerca de 1.200 metros quadrados de fachada. Revitalizá-la completamente custaria entre R$ 42 mil e R$ 72 mil — menos do que o salário anual de um único assessor parlamentar.
Um prédio histórico no centro de Manaus, com 600 metros quadrados de fachada, custaria entre R$ 21 mil e R$ 36 mil para ser totalmente revitalizado.
Agora multiplique isso por 50 imóveis tombados. O custo total ficaria entre R$ 1 milhão e R$ 1,8 milhão — menos do que uma única obra de recapeamento asfáltico de 2 quilômetros.
Mas o retorno é incomparavelmente maior.
Estudos do setor imobiliário comprovam: imóveis com fachadas bem conservadas e pintadas valorizam até 30%. Um edifício comercial que investiu R$ 150 mil em pintura viu seu valor subir de R$ 500 mil para R$ 650 mil — ROI de 60%.
Além disso, a pintura gera emprego local imediato: pintores, arquitetos, artistas, fornecedores de material. E o impacto indireto é ainda maior: turismo, comércio, redução de criminalidade (ambientes cuidados transmitem sensação de segurança), aumento da autoestima coletiva.
A matemática é brutal: pintar é uma das políticas públicas mais baratas e de maior impacto emocional que existe.
Por que, então, ninguém faz?
A IDENTIDADE AMAZÔNICA QUE PRECISA RENASCER NAS PAREDES
Manaus não pode copiar Recife. Não pode copiar Salvador. Não pode importar a paleta de Curitiba.
Manaus precisa de cores amazônicas.
Durante o ciclo da borracha, a cidade tentou ser a "Paris dos Trópicos" — uma negação da identidade indígena e cabocla em favor de um padrão estético europeu. O resultado foi um ressentimento histórico e um abalo na autoestima coletiva que dura até hoje.
A revitalização de Manaus exige cores que dialoguem com o rio, a floresta, a luz tropical. Tons como "Vitória Régia", "Tucumã", "Azul Caprichoso", "Verde Amazonas", "Cupuaçu" e "Orquídea" não apenas embelezam — elas reconectam o morador com sua paisagem ancestral.
Projetos contemporâneos, como as paletas desenvolvidas pela CityColor especificamente para Manaus, demonstram que é possível sistematizar a identidade local através de cores inspiradas no ecossistema amazônico. A cidade pode se tornar uma "paleta viva", uma referência mundial de como integrar urbanismo, cultura e natureza.
Mas isso exige algo que tem faltado: coragem política para assumir a identidade amazônica sem complexo de inferioridade.
O APELO FINAL: A COR QUE O POVO ESPERA, O VOTO QUE A COR GARANTE
Este não é um texto sobre arquitetura. Este é um texto sobre poder.
Poder de transformar. Poder de emocionar. Poder de conquistar.
Quem pintar Manaus antes das eleições de 2026 não estará apenas revitalizando fachadas — estará gravando na memória afetiva do eleitor uma mensagem impossível de apagar: "eu cuidei de você".
Não é obra grandiosa que conquista coração. É detalhe. É cuidado. É a escola do filho pintada. É a praça da avó revitalizada. É o centro histórico que voltou a ser fotogênico.
E quando o eleitor caminha pela rua e vê que a cidade está bonita, ele não pensa: "que obra bem-feita". Ele pensa: "alguém se importou comigo".
Isso não se compra com marketing. Isso não se conquista com discurso. Isso se constrói com tinta, cor e respeito.
Wilson Lima, Omar Aziz, David Almeida: vocês têm nas mãos uma bandeira que pode ser a primeira ação que encanta a todos. Uma política pública que será sentida no caminhar de cada cidadão. Uma transformação que custa menos que propaganda eleitoral e rende mais que qualquer outdoor.
Manaus está desbotada. Mas não está morta.
Manaus espera. Manaus merece. Manaus cobra.
A cor que falta na capital da Amazônia pode ser a cor que define o próximo governo.
A pergunta que fica é simples: quem terá a coragem de pintar a cidade antes de pintar promessas?
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Verificação realizada em parceria: Nafesta + Adão Gomes, jornalista MTB-000191/AM, seguindo protocolo AZR-BRS 1.00 de governança cognitiva. Strategic Foresight & Cognitive Governance. Esta matéria consultou 8 bases institucionais verificáveis. Linha editorial: Mitigação máxima de risco processual via validação cruzada e rastreabilidade de fontes. 25 anos, 78.000+ matérias, zero processos judiciais.
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