
Adão Gomes
Quando o Festival Amazonas de Ópera foi cancelado em 2024 por falta de recursos, o silêncio que tomou conta do Teatro Amazonas não foi apenas a ausência de música. Foi o eco de uma verdade incômoda: a cultura amazonense, que por duas décadas brilhou nos palcos internacionais, perdeu sua blindagem política. E junto com ela, perdeu o arquiteto que a ergueu.
Robério dos Santos Pereira Braga não é apenas um nome na história cultural do Amazonas. É o nome. Durante +20 anos ininterruptos à frente da Secretaria de Estado de Cultura — de 1997 a 2017 — ele construiu algo raro na administração pública brasileira: um legado tangível, mensurável e internacionalmente reconhecido. Atravessou sete gestões governamentais, servindo a Amazonino Mendes, Eduardo Braga, Omar Aziz e José Melo. Não por compadrio político, mas por competência técnica inquestionável.
Agora, às vésperas de 2026, com uma nova eleição para governador se desenhando no horizonte, o Amazonas precisa fazer uma pergunta brutal: quem tem capacidade comprovada para resgatar a cultura de Estado do colapso em que se encontra? A resposta não está em promessas eleitorais. Está em 20 anos de resultados concretos.
O ARQUITETO QUE CONSTRUIU UM SISTEMA
Robério Braga não gerenciou eventos. Ele construiu um sistema. Quando assumiu a secretaria em 1997, herdou um Teatro Amazonas que há 73 anos não via uma temporada lírica completa. A última havia sido em 1924. O símbolo máximo da Belle Époque amazonense estava reduzido a cartão-postal turístico, visitado mas não vivido.
A transformação começou com uma aposta audaciosa: criar o Festival Amazonas de Ópera. Não um evento isolado, mas uma política de Estado. Para isso, fundou a Amazonas Filarmônica em 1997, importando músicos do Leste Europeu — decisão que gerou críticas, mas que ele defendia com argumento cirúrgico: "Não tínhamos músicos locais qualificados para o repertório sinfônico. Os estrangeiros vieram condicionados ao ensino. Foram o capital semente para criar a escola que não existia."
Vinte anos depois, a estratégia provou-se vencedora. A Filarmônica passou a ter composição mista, e foi criada a Orquestra Experimental, formada por jovens amazonenses. O que era dependência externa tornou-se autonomia local.
Mas Robério não parou na orquestra. Percebendo que importar cenários e figurinos de São Paulo ou da Europa custava R$ 6 milhões por produção, ele criou a Central Técnica de Produção (CTP) — uma verdadeira fábrica de ópera em Manaus. Formou técnicos locais em cenotecnia, adereçaria, iluminação e figurino. O custo caiu para R$ 2 milhões. O acervo acumulou mais de 50 mil peças. O Amazonas começou a exportar produções para outros estados. Deixou de ser consumidor para se tornar produtor.
O MAIOR FESTIVAL DE ÓPERA DA AMÉRICA LATINA
O Festival Amazonas de Ópera não é hipérbole. É reconhecimento internacional. A Vogue incluiu o Teatro Amazonas entre as casas de ópera mais belas do mundo. O The Guardian listou o teatro entre os 50 monumentos urbanos mais importantes do planeta. O TripAdvisor, em 2015, elegeu o Teatro Amazonas o 5º ponto turístico mais bem avaliado do Brasil — à frente de destinos consagrados.
Em 2008, o festival sediou a estreia mundial de "Ça Ira", ópera de Roger Waters, do Pink Floyd, com a Amazonas Filarmônica sob regência de Luiz Fernando Malheiro. Em 2017, trouxe "Adriana Lecouvreur" em parceria com o Theatro São Pedro — primeira apresentação da obra no Brasil em 50 anos.
Não eram apenas espetáculos. Eram declarações de capacidade. O Amazonas provava ao mundo que podia produzir Wagner e Verdi no coração da floresta com excelência técnica europeia. Era o combate direto ao "complexo de vira-lata" regional. A mensagem era clara: somos amazônicos, mas não somos periféricos.
PARINTINS: DA FESTA LOCAL À INDÚSTRIA CULTURAL
Se a ópera era a face erudita voltada para a Europa, o Festival de Parintins era a face popular voltada para o Brasil e o mundo. E Robério operou uma transformação profunda na festa.
Sob sua gestão, o Bumbódromo deixou de ser uma arena usada três dias por ano. Foi transformado no Centro Cultural de Parintins, abrigando o Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro. A ressignificação foi estratégica: as crianças que aprendiam violino e dança no Liceu durante o ano eram as mesmas que tocavam na marujada e dançavam nas tribos em junho. Criou-se um ecossistema autossustentável de formação e performance.
A SEC assumiu o papel de reguladora técnica do festival. Implementou critérios rigorosos de julgamento, com jurados de outros estados sorteados para garantir imparcialidade. A "tecnificação" forçou Caprichoso e Garantido a se profissionalizarem. Saíram os improvisos e a rusticidade; entraram os guindastes, a iluminação LED, as alegorias hidráulicas. O resultado foi um espetáculo pronto para transmissão televisiva em alta definição.
A articulação política de Robério, especialmente com o governador Eduardo Braga, garantiu o patrocínio vitalício da Coca-Cola: R$ 70 milhões ao longo de 18 anos. Esse capital privado, mediado pelo Estado, permitiu que os bois mantivessem estruturas gigantescas e pagassem artistas o ano inteiro. Parintins deixou de ser festa para se tornar indústria cultural.
OS LICEUS: DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO À FORMAÇÃO
O Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro foi a resposta de Robério à acusação de elitismo. Se a ópera parecia distante, a formação seria acessível. O Liceu tornou-se a maior escola de formação artística gratuita da Região Norte.
Em Manaus, na sede do Sambódromo, e em Parintins, dentro do Bumbódromo, os Liceus atendiam mais de 12 mil alunos por ano em 48 cursos artísticos e técnicos. Jovens da periferia tiveram acesso a formação em música erudita, dança, teatro, artes visuais — conhecimentos antes restritos a aulas particulares caras.
O impacto foi duplo: democratizou o acesso e formou a mão de obra técnica que sustentava os grandes festivais. Os músicos da Filarmônica, os bailarinos do Corpo de Dança, os técnicos da CTP — muitos eram egressos do Liceu. Robério construiu a base da pirâmide ao mesmo tempo em que operava o topo.
A POLÍTICA EDITORIAL: CONTROLE DA NARRATIVA
Menos visível, mas ideologicamente fundamental, foi a política editorial. Através das Edições Governo do Estado do Amazonas, Robério exerceu controle sobre a narrativa histórica da região.
A "Série Memória", iniciada nos anos 1970 e institucionalizada na SEC, publicou 138 fascículos sobre história do Amazonas. O objetivo era criar um cânone amazonense. Ao inundar escolas e bibliotecas com esse material, a SEC definiu quem eram os heróis e quais eram os eventos fundadores da identidade estadual.
A reedição da obra completa de Arthur Cezar Ferreira Reis, o maior historiador da Amazônia, foi movimento estratégico. Arthur Reis defendia a soberania brasileira na Amazônia contra visões estrangeiras. Ao reeditar sua obra, Robério alinhava a política cultural com um nacionalismo regionalista caro à classe política e militar local.
A restauração da Biblioteca Pública do Amazonas (2007-2013) foi tratada como obra de restauro de catedral. A publicação do livro "Biblioteca Pública do Amazonas" pelo próprio Robério em 2013 marcou a entrega. Era cultura como monumento, a ser preservada e admirada.
NÚMEROS QUE FALAM POR SI
Entre 2012 e 2015, a SEC investiu R$ 2 milhões nos municípios amazonenses. Atendeu 62 municípios, 105 comunidades e 100 bairros de Manaus. O projeto Braille Casa a Casa alcançou seis estados brasileiros.
Durante o governo Eduardo Braga, o projeto Jovem Cidadão levou acesso cultural a 139 escolas, atingindo 45 mil alunos. Foram 70 bolsas de viagem para municípios-polo e 60 vagas em residências artísticas em Manaus.
O Festival Amazonas de Ópera formou 95% dos técnicos localmente. A Filarmônica, o Coral do Amazonas, o Corpo de Dança — todos criaram carreiras estáveis para centenas de artistas. A cadeia produtiva dos festivais fomentou um mercado de serviços técnicos (luz, som, palco) e comércio especializado (instrumentos musicais) que não existia.
De 1996 a 2015, segundo o próprio Robério, "a cultura no Estado apresentou um grande salto de qualidade, pois possui representatividade no País, na América Latina, com o Festival de Ópera e mundial, com o Teatro Amazonas."
ZERO PROCESSOS, VINTE ANOS DE GESTÃO
Em duas décadas à frente da maior secretaria cultural do Norte do Brasil, Robério Braga não acumula um único processo judicial por improbidade administrativa. As contas, inicialmente questionadas pelo TCE-AM em 2014 (relacionadas a repasses a ONGs culturais), foram posteriormente aprovadas em recurso.
Não há escândalos. Não há desvios. Há execução técnica, prestação de contas e resultados entregues. Em um país onde gestores culturais frequentemente enfrentam acusações e investigações, essa ficha limpa é excepcional.
Há um ponto em que planilhas, relatórios e cargos já não explicam tudo. Depois de atravessar 21 anos consecutivos à frente da cultura do Amazonas, a pergunta inevitável deixa de ser administrativa e passa a ser humana: qual é o tamanho da emoção — sua, de sua família, de seus amigos e de todos que o acompanharam — por ter dedicado mais de duas décadas da vida a esse projeto coletivo? Como foi sustentar essa travessia longa, sob pressões políticas, crises e disputas, sem perder o eixo, sem desistir, sem se afastar do propósito inicial? Foi apenas resiliência técnica ou houve algo além — um senso de missão, talvez espiritual, que o manteve firme quando o caminho parecia excessivo para qualquer gestor comum? Essa é uma resposta que não cabe em relatórios, mas na consciência de quem viveu a travessia.
A QUEDA E O VÁCUO DE PODER
A exoneração de Robério em outubro de 2017, ironicamente, veio no retorno de quem o nomeou: Amazonino Mendes. A troca por Denilson Novo, músico da banda Tucumanus, sinalizou vontade de renovação após 20 anos. Novo tinha perfil popular, antítese do erudito Braga.
Os sucessores — Denilson Novo (2017-2019) e Marcos Apolo Muniz (2019-presente) — tentaram imprimir marcas diferentes, focando em economia criativa e diálogo com a classe artística. Mas perderam a força política que Braga detinha. O resultado foi a crise: cortes orçamentários, diminuição da grandiosidade dos eventos e, em 2024, o cancelamento do Festival Amazonas de Ópera por falta de verba.
O "Vácuo Braga" demonstrou que as instituições criadas, embora fortes, não eram autônomas financeiramente. Dependiam de um "padrinho" político forte para sobreviver no topo das prioridades orçamentárias. Marcos Apolo Muniz, o atual secretário, reconhece: "Como Robério passou um bom tempo à frente da cultura é até natural consultá-lo sobre muitos processos."
O INTELECTUAL QUE NUNCA PAROU
Robério não se aposentou da vida pública. Aos 74 anos, continua presidente da Academia Amazonense de Letras, mantém coluna semanal em portais de notícias e atua como consultor em política cultural. Em 2024, foi convidado para ser embaixador do projeto "Amazônia Que Eu Quero", da Fundação Rede Amazônica.
Sua produção intelectual não cessou. Publicou 24 livros sobre história do Amazonas, patrimônio cultural e direito ambiental. Recentemente, ampliou o escopo de pesquisa para estudos sobre cultura afro-brasileira e escravidão no Amazonas, respondendo tardiamente às críticas de eurocentrismo.
É membro titular do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas desde 1973, onde foi presidente em múltiplos mandatos. Leciona na Escola Superior da Magistratura e na Escola Judiciária Eleitoral. Não é um gestor aposentado. É um intelectual ativo, um técnico disponível.
O QUE OMAR AZIZ SABE (E OUTROS DEVERIAM APRENDER)
Omar Aziz conhece Robério profundamente. Trabalhou com ele durante todo seu governo (2010-2014). Foi sob Omar que o Liceu de Parintins foi inaugurado, com capacidade para 5.700 alunos. Foi sob Omar que a Central Técnica de Produção se consolidou. Foi sob Omar que a SEC manteve sua blindagem política e seu orçamento robusto. Não podemos esquecer o Governador José Melo, que também fez parte desta história.
A confiança entre ambos foi construída em ciclos longos de poder. Robério integra o que a imprensa chama de "time vencedor" — o grupo político liderado por Omar Aziz e Eduardo Braga. Em dezembro de 2024, em evento da Assembleia de Deus, Eduardo Braga declarou publicamente seu apoio a Omar para 2026: "Se Deus quiser, e Deus quer, haverá de ser novamente governador do Estado do Amazonas."
Se Omar vencer em 2026, conhece o nome técnico para a cultura. Mas e os outros candidatos? Conhecem Robério Braga? Estudaram seu legado? Entendem que a cultura não é gasto, mas investimento em identidade, turismo e economia criativa?
O DESAFIO PARA 2026: ESCOLHER ENTRE O TÉCNICO E O POLÍTICO
O próximo governador do Amazonas, seja quem for, enfrentará uma escolha: nomear um secretário de cultura por critério técnico ou por critério político. Se a escolha for política — um aliado eleitoral, um quadro partidário sem experiência, um nome para agradar bases — a cultura continuará como nota de rodapé orçamentária.
Se a escolha for técnica, há um nome óbvio. Um nome com 20 anos de resultados. Um nome que transformou o Teatro Amazonas em vitrine mundial. Um nome que profissionalizou Parintins. Um nome que formou 12 mil jovens por ano. Um nome que atravessou sete gestões porque competência não tem partido.
Robério Braga não precisa do cargo. Está confortável na Academia de Letras, escrevendo livros, dando palestras. Mas o Amazonas precisa dele. A cultura amazonense precisa dele. Os artistas que hoje enfrentam cortes e incertezas precisam dele.
A CULTURA COMO ATIVO ESTRATÉGICO
Vivemos a contagem regressiva para 2027, quando os incentivos da Zona Franca de Manaus começam a perder força. O modelo econômico que sustentou o Amazonas por décadas precisa de alternativas. O turismo cultural é uma delas. A economia criativa é outra.
Mas turismo cultural e economia criativa não se constroem com improviso. Exigem visão de longo prazo, articulação política, formação de mão de obra e projeção internacional. Exigem alguém que saiba fazer um festival de ópera funcionar por 20 anos consecutivos. Alguém que saiba transformar uma festa popular em indústria de R$ 70 milhões. Alguém que saiba criar escolas de arte que funcionem.
Robério Braga provou, durante duas décadas, que sabe fazer isso. Não é promessa. É histórico. Não é discurso. É legado tangível.
O RECADO PARA QUEM QUER GOVERNAR
Este editorial não é endosso político a candidato A ou B. É um alerta institucional. O Amazonas construiu, entre 1997 e 2017, um patrimônio cultural que virou referência nacional e internacional. Esse patrimônio está em risco. O cancelamento do Festival de Ópera em 2024 é apenas o sintoma mais visível.
Quem quiser governar o Amazonas de verdade — e não apenas administrar crises — precisa entender que a cultura é ativo estratégico. E ativos estratégicos exigem gestores estratégicos.
Robério Braga está disponível. Seu telefone não mudou. Seu conhecimento não enferrujou. Sua rede de contatos internacionais está intacta. Sua capacidade de articulação política permanece afiada. Aos 74 anos, tem mais energia e clareza de propósito que muitos jovens gestores.
A pergunta que fica para os candidatos de 2026 é simples e direta: vocês vão escolher a competência ou o compadrio? Vão escolher o legado ou o improviso? Vão escolher quem construiu ou quem promete construir?
O Amazonas já sabe a resposta. Resta saber se os candidatos também sabem.
Verificação realizada em parceria: Nafesta + Adão Gomes, jornalista MTB-000191/AM, seguindo protocolo AZR-BRS 1.00 de governança cognitiva. Strategic Foresight & Cognitive Governance. Esta matéria consultou +100 bases institucionais verificáveis. Linha editorial: Mitigação máxima de risco processual via validação cruzada e rastreabilidade de fontes. 25 anos, 78.k+ matérias, zero processos judiciais.
TOTAL: 105 FONTES CONSULTADAS
Mín. 22° Máx. 30°