
Por Adão Gomes - www.nafesta.com.br
A divulgação do ranking dos prefeitos mais ricos do Amazonas expõe uma contradição que vai muito além dos números declarados ao Tribunal Superior Eleitoral. Enquanto gestores de municípios com graves problemas socioeconômicos ostentam patrimônios milionários, figuras políticas marcadas por investigações federais e condenações judiciais declaram formalmente não possuir absolutamente nada.
O levantamento baseado nas declarações de bens do TSE para as eleições de 2024 revela um padrão intrigante: quase metade dos dez prefeitos mais ricos do Amazonas governa municípios do Alto Solimões, uma das regiões mais carentes do estado.
No topo da lista está Augusto Ferraz (União Brasil), de Iranduba, com patrimônio declarado de R$ 8,3 milhões. Em apenas 12 anos, Ferraz viu sua fortuna saltar de modestos R$ 183 mil (2012) para os atuais R$ 8,3 milhões – um crescimento de mais de 4.400%.
Logo atrás aparecem Dr. Lázaro, de Fonte Boa (R$ 7,7 milhões), Toco Santana, de Borba (R$ 6,8 milhões), e Bosco Falabella, de Urucará (R$ 6,2 milhões). O quinto colocado, Cecéu, de Santo Antônio do Içá, declarou R$ 2,4 milhões.
A concentração de riqueza no Alto Solimões é especialmente reveladora. Fonte Boa, Santo Antônio do Içá, Amaturá e São Paulo de Olivença – todos com prefeitos no ranking dos dez mais ricos – apresentam indicadores de desenvolvimento humano preocupantes e infraestrutura precária.
Mas é na outra ponta do ranking que reside o verdadeiro paradoxo. Cinco prefeitos eleitos em 2024 declararam ao TSE não possuir qualquer bem: Adail Pinheiro (Coari), Macelly Veras (Maués), José Beleza (Santa Isabel do Rio Negro), Egmar Curubinha (São Gabriel da Cachoeira) e Marcos Martins (Uarini).
O caso mais emblemático é o de Adail Pinheiro, em Coari – município que arrecadou mais de R$ 58 milhões em royalties de petróleo apenas nos primeiros nove meses de 2025. Pinheiro, figura central da Operação Vorax (Polícia Federal, 2008), que investigou desvios estimados entre R$ 40 milhões e R$ 100 milhões, declarou "zero bens" nas eleições de 2024.
Em 2012, quando foi eleito prefeito pela última vez, Pinheiro declarava R$ 84 mil em bens (três veículos). Doze anos depois, após comandar uma dinastia política que inclui o filho Adail Filho (também investigado por desvios de R$ 100 milhões) e a deputada Mayara Pinheiro, o patriarca declara não ter absolutamente nada.
A contradição é gritante: como um gestor que movimenta centenas de milhões em contratos públicos, que comanda uma estrutura política complexa e que mantém influência em um dos municípios mais ricos do estado não possui sequer um veículo em seu nome?
José Ribamar Fontes Beleza, prefeito reeleito de Santa Isabel do Rio Negro com 59% dos votos válidos, é outro exemplo do paradoxo. Beleza declarou "zero bens" ao TSE em 2024, mas em 2020 havia informado possuir um veículo de R$ 45 mil.
O que aconteceu nesse intervalo? Em 2020, o Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM) julgou irregulares as contas de Beleza referentes ao exercício de 2015 (quando era prefeito de Barcelos), condenando-o a devolver mais de R$ 2 milhões aos cofres públicos entre multas e alcances.
Além disso, Beleza acumula condenações por improbidade administrativa com suspensão de direitos políticos – uma transitada em julgado em 2018 com suspensão por 8 anos, outra em 2020 com suspensão por 3 anos. O Ministério Público denunciou ainda o esquema de 23 "funcionários fantasmas" em sua gestão em Barcelos.
Mesmo assim, o TRE-AM garantiu seu registro de candidatura por 5 votos a 1, e Beleza foi reeleito. A estratégia de declarar "zero bens" torna-se evidente: diante de uma dívida milionária com o erário, a liquidação oficial do patrimônio pessoal é a blindagem mais eficaz contra execuções judiciais.
A Operação Vorax, deflagrada em 2008, desvendou um dos maiores esquemas de corrupção municipal do Amazonas. Adail Pinheiro foi condenado a 11 anos de prisão por estelionato e corrupção ativa na chamada "Operação Matusalém", que revelou fraude previdenciária com inserção de dados falsos no INSS para liberar parcelas indevidas do Fundo de Participação dos Municípios.
Apenas em 2004, essa manobra gerou R$ 1,39 milhão em "receita extra" fraudulenta. O legado para Coari foi uma dívida previdenciária superior a R$ 40 milhões.
As investigações do Ministério Público Federal apontaram desvios totais que podem ter alcançado R$ 100 milhões através de licitações viciadas, superfaturamento e um "estado paralelo" dentro da prefeitura.
Mas a dinastia Pinheiro não foi desmantelada. Adail Filho sucedeu o pai e também foi preso em 2019 sob suspeita de manter o esquema de propinas (30% sobre contratos) e desvios novamente na casa dos R$ 100 milhões.
Coari não é um município pobre. É um município rico com população empobrecida. Com um PIB per capita de R$ 39 mil (superior à média estadual de R$ 30,8 mil) e receitas de royalties que ultrapassaram R$ 58 milhões apenas entre janeiro e setembro de 2025, Coari deveria apresentar indicadores sociais compatíveis.
A realidade é oposta. Enquanto Manaus recebeu apenas R$ 147 mil em royalties no mesmo período, Coari recebeu quase R$ 60 milhões – uma diferença de 40.000%. No entanto, os indicadores de infraestrutura, saúde e educação do município permanecem estagnados.
O dinheiro entra nos cofres públicos, mas é drenado por contratos superfaturados e esquemas de corrupção antes que possa se transformar em saneamento básico, escolas ou hospitais.
A teia de corrupção não respeita fronteiras municipais. A empresa Iza Construções e Comércio Eireli, identificada nas investigações da Operação Vorax como peça central no esquema de Adail Pinheiro – seu proprietário, Fábio Souza de Carvalho, confessou ter pago R$ 500 mil em propina para liberar pagamentos da prefeitura de Coari –, continua ativa.
Apesar desse histórico criminal público e documentado, a gestão do prefeito Augusto Ferraz em Iranduba contratou a Iza Construções para obras de infraestrutura no Distrito de Ariaú. O valor do contrato ultrapassa R$ 6,1 milhões.
Ferraz, reeleito no primeiro turno com índices de aprovação razoáveis (46,6%), governa um município que enfrenta colapso em serviços básicos enquanto seu patrimônio pessoal cresceu 22,68% em apenas quatro anos de mandato.
A declaração de "zero bens" não é ingenuidade nem pobreza real – é estratégia jurídica sofisticada. A Lei de Improbidade Administrativa e as ações de ressarcimento ao erário frequentemente resultam em medidas liminares de bloqueio de bens.
Para um gestor com histórico de irregularidades, manter bens em nome próprio é risco inaceitável. A solução: transferir a riqueza para familiares (caso de Emanoel Pinheiro, filho de Adail, que declarou R$ 360 mil), empresas de fachada ou simplesmente operar com dinheiro vivo na economia informal.
Quando a Justiça determina o bloqueio de bens, não encontra nada. A decisão judicial torna-se inócua diante do vazio declarado. Enquanto isso, a capacidade de financiar campanhas milionárias permanece intacta.
O ranking dos prefeitos mais ricos do Amazonas expõe mais do que disparidades patrimoniais – revela um sistema de governança onde a riqueza pública é sistematicamente privatizada por uma elite política que, juridicamente, simula a indigência para proteger o produto do saque.
A "pobreza declarada" de figuras como Adail Pinheiro e José Beleza não é casual – é a prova da eficácia dos mecanismos de lavagem de dinheiro e ocultação de ativos que sustentam décadas de poder.
Enquanto isso, municípios ricos em recursos naturais e transferências constitucionais permanecem prisioneiros do atraso, pagando um imposto invisível de 100% sobre seu futuro: a corrupção sistêmica que transforma cada real de royalty em combustível para a perpetuação de dinastias políticas e a manutenção do subdesenvolvimento.
Os números não mentem. Mas, no Amazonas, eles contam apenas metade da história – a outra metade está escondida nas sombras da "riqueza oculta" que nunca aparece nas declarações oficiais.
Esta reportagem investigativa foi produzida a partir de múltiplas camadas de verificação factual e cruzamento de dados oficiais. O trabalho jornalístico envolveu:
PAUTA ORIGINAL: A matéria foi pautada pelo artigo publicado no portal Fato Amazônico em 29/12/2024: "Na lista dos 10+ ricos, Adail Pinheiro aparece do outro lado da ponta como o 4º prefeito mais pobre do interior do AM" (https://fatoamazonico.com.br/na-lista-dos-10-ricos-adail-pinheiro-aparece-do-outro-lado-da-ponta-como-o-4o-prefeito-mais-pobre-do-interior-do-am/)
METODOLOGIA DE APURAÇÃO:
FONTES DOCUMENTAIS VERIFICADAS (32):
VALIDAÇÃO DOS DADOS: Todos os valores patrimoniais citados foram verificados no sistema oficial do TSE. Todas as condenações judiciais mencionadas têm decisões publicadas em diários oficiais ou sites dos tribunais. Os valores de royalties foram confirmados junto à ANP e portais de transparência. Os dados do IDH são do IBGE (censo 2010 e estimativas 2020-2022).
TRANSPARÊNCIA EDITORIAL: Este artigo representa análise jornalística independente baseada em fatos verificáveis de domínio público. As interpretações e conclusões são de responsabilidade exclusiva do autor. Todas as informações foram tratadas com o rigor técnico exigido pelo jornalismo investigativo e estão disponíveis para verificação pública nas fontes citadas.
Adão Gomes é jornalista (MTB-AM 000191), CEO do www.nafesta.com.br e especialista em governança e análise política
Data de publicação: 29 de dezembro de 2025
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