
Adão Gomes- Jornalista
Desespero da gestão municipal expõe verdade incômoda: capital amazonense investe fortunas em limpeza mas população insiste em jogar resíduos em igarapés, rios e vias públicas, ignorando coleta regular e transformando meio ambiente em depósito de lixo
Bairro Petrópolis, zona Sul de Manaus, dezembro de 2025. Entre o Centro de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente e uma parada de ônibus movimentada, um terreno baldio na avenida Coronel Ferreira de Araújo acumula sua quinta montanha de lixo em apenas sessenta dias. Retroescavadeiras da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana reviram entulho, móveis quebrados, sacolas plásticas e eletrodomésticos descartados. O balanço é brutal: duzentas toneladas de resíduos removidas do mesmo endereço no curto espaço de dois meses. A operação termina ao entardecer. Na manhã seguinte, novos sacos de lixo já começam a reaparecer no local.
Esse ciclo perverso de limpeza e reincidência imediata não é exceção — é a regra que define o maior desafio urbano da capital amazonense em 2025. Manaus produz entre duas e três mil toneladas de resíduos sólidos diariamente, equivalente a quinhentos e setenta e cinco caminhões-caçamba cheios. Desse volume colossal, apenas dois por cento segue para reciclagem. O restante pressiona um aterro sanitário que completou quarenta anos de operação com vida útil esgotada desde janeiro, mantido em funcionamento apenas por decisão judicial que prorrogou seu prazo até abril de 2028.
A Semulsp desarticulou seiscentas e vinte e quatro lixeiras clandestinas somente no mês de julho, removendo mais de duas mil e trezentas toneladas de resíduos acumulados em áreas transformadas em depósitos irregulares. Ao longo de todo o ano, cento e noventa e seis operações de combate às lixeiras viciadas recolheram nove mil e quatrocentas toneladas adicionais. Os números revelam uma guerra urbana travada diariamente: de um lado, máquinas, equipes e orçamento público; do outro, um comportamento social arraigado que ignora coleta domiciliar regular, horários estabelecidos e Pontos de Entrega Voluntária disponíveis.
Mesmo com coleta domiciliar funcionando de segunda a sábado, moradores depositam lixo em qualquer esquina, encosta de igarapé ou terreno baldio. A explicação combina fatores culturais — baixa percepção de risco ambiental —, sociais — ausência histórica de infraestrutura em periferias — e econômicos — custo para destinar entulho adequadamente.
O resultado é naturalização perigosa: espaço público como extensão da lixeira doméstica. Margens de igarapés viram depósitos. Beiras de avenidas acumulam móveis e eletrodomésticos. A crença de que "alguém sempre vai limpar" alimenta reincidência e impõe gasto brutal evitável. Zonas Norte, Oeste e Centro-Sul registram novos pontos com frequência alarmante. Cidade de Deus, Compensa, Santo Agostinho e dezenas de bairros demandam remoção constante. A mensagem é incômoda: educação ambiental ainda não produziu mudança comportamental na escala necessária.
O orçamento de 2025 destinou quatrocentos e setenta e um milhões à Semulsp. A realidade cobrou setenta e quatro por cento a mais: quinhentos e oitenta e quatro milhões gastos. Esse montante torna limpeza urbana um dos maiores itens de despesa municipal.
Só remoção de lixo de igarapés e orla consome dez milhões anuais. Em 2025, foram retiradas três mil, quatrocentas e noventa e cinco toneladas da orla do Rio Negro — recorde histórico. Antes das doze ecobarreiras, a Semulsp removia setecentas toneladas mensais diretamente da orla. As ecobarreiras retêm trezentas toneladas por mês, totalizando três mil e seiscentas anuais que não chegam ao rio Negro.
A relação custo-resultado expõe verdade desconfortável: investimento massivo em máquinas não acompanha mudança de mentalidade. Manaus opera em ciclo de remediação permanente quando deveria investir em prevenção. A conta não fecha porque o problema não é técnico — é comportamental.
Quarenta e nove Pontos de Entrega Voluntária receberam trezentas e sessenta e seis mil toneladas de recicláveis em 2025. Coleta porta-a-porta em cento e cinquenta rotas recolheu trezentas e setenta e três mil toneladas. Total: setecentas e quarenta milhões de toneladas que não foram para aterro e geraram renda para dezesseis cooperativas de catadores.
O Festival #SouManaus virou vitrine de inovação. Coletores verdes inteligentes, de startup local, permitiram trocar recicláveis por pontos. Dois dias: três toneladas recolhidas. Escolas protagonizaram exemplos notáveis: alunos da Escola Percília do Nascimento Souza arrecadaram seis mil garrafas PET em duas semanas. Trinta e quatro operações de pneus retiraram trinta e sete mil unidades, evitando criadouros de mosquitos.
Dezenas de educadores ambientais da Semulsp atuam diariamente nas ruas, orientando sobre descarte correto, horários de coleta e uso dos PEVs. Trabalham com escolas, ONGs, igrejas e empresas, promovendo cultura de coleta seletiva.
Projetos como Consciência Limpa e Fundação Amazônia Sustentável instalam PEVs em áreas estratégicas. Na Marina do Davi, comunidades gerenciam pontos de coleta com arte retratando lideranças locais. Material vai para cooperativas, gerando renda e evitando poluição de rios.
Lideranças comunitárias intermediam população e poder público, representando média de cem famílias cada. Atuam em hortas, orfanatos, conselhos tutelares. Águas de Manaus mantém programa Afluentes com seiscentas lideranças, canal direto para resolver demandas.
A Câmara Municipal aprovou Projeto de Lei 377/2025 criando Programa Municipal de Conscientização. Institui Semana de Conscientização Ambiental, mutirões de limpeza, oficinas de reaproveitamento, feiras e concursos escolares. Materiais recolhidos vão para cooperativas, fortalecendo economia circular e gerando renda.
Em julho de 2025, Manaus lançou maior projeto de gestão de resíduos da Amazônia em Parceria Público-Privada. Leilão na B3 previsto para 2026 abrirá concorrência para investimentos de um bilhão e seiscentos milhões em trinta anos. Beneficiará dois milhões e meio de habitantes com universalização da coleta, modernização da destinação e formalização de catadores.
Estrutura inclui triagem automatizada, biogás, biometano, tratamento de chorume e coleta seletiva ampliada. Diferencial social: além de formalizar catadores — responsáveis por noventa por cento do lixo reciclado no Brasil —, prevê creche comunitária, escola ambiental e capacitação profissional. O aterro atual atingiu vida útil em janeiro, mantido por decisão judicial até abril de 2028 para conclusão de novo aterro e início das operações da PPP.
O arcabouço legal é robusto. Lei Estadual 7.894/2025 institui medidas emergenciais com multas e sanções. Código Ambiental de Manaus prevê multas acima de sete mil reais para casos leves. Operações integradas reúnem múltiplos órgãos para fiscalização com flagrantes e autuações. Instituto de Proteção Ambiental aplicou multa de duzentos e cinquenta mil reais em empresa do Distrito Industrial por descarte irregular.
Apesar do arsenal normativo, volume de lixeiras viciadas indica capacidade de fiscalização limitada frente à dimensão da cidade. Prefeitura reconhece: solução exige mais do que máquinas e multas — exige mudança de hábitos.
Manaus enfrenta desafios clássicos amazônicos: longas distâncias, ocupações irregulares, áreas sem infraestrutura, bairros em encostas e proximidade com igarapés. Regime de cheias e vazantes com chuvas intensas potencializa arraste de lixo para bueiros e igarapés, causando alagamentos.
Em 2025, prefeitura ampliou oitocentas e vinte e oito drenagens, desobstruiu mil e trezentos bueiros. O que encontram nas caixas coletoras: sacolas plásticas, garrafas PET, móveis e eletrodomésticos jogados irregularmente. Enquanto esse padrão continuar, lixo voltará, entupirá bueiros, alagará ruas.
Poluição por resíduos contribui para degradação da água, proliferação de vetores de doença e risco à saúde. Relatórios oficiais descrevem lixo em igarapés como ameaçando "impactos ambientais irreversíveis", revelando risco crônico mesmo com ecobarreiras.
"A cidade não muda apenas com máquinas, é preciso conversar, orientar e envolver as pessoas. O cuidado com Manaus começa na atitude de cada um." A frase do secretário Sabá Reis resume o desespero de uma gestão que investe fortunas mas convive com reincidência crônica. O prefeito David Almeida balança bandeiras vermelhas pedindo socorro. Quinhentos e oitenta e quatro milhões de reais em 2025 não foram suficientes porque somos mal educados ambientalmente.
Enquanto educadores, cooperativas, ONGs e lideranças travam batalha diária, o comportamento social majoritário demonstra desrespeito cruel ao meio ambiente amazônico. Jogar lixo em rios, igarapés e ruas não é apenas falta de consciência — é crime ambiental que destrói nosso patrimônio natural.
Manaus está na encruzilhada. A transformação exige que cada manauara assuma responsabilidade pelo descarte correto. Ecobarreiras retêm toneladas, coleta seletiva avança, PPP promete mudança estrutural. Mas nada disso terá efeito se a população não romper o ciclo de má educação ambiental que envergonha a capital da Amazônia.
O lixo nas ruas não é problema da Semulsp — é espelho de uma sociedade que ainda não compreendeu que respeitar o meio ambiente começa no simples ato de não jogar resíduos em rios, igarapés e vias públicas. Cidadania ambiental não se decreta. Se constrói com educação, exemplo e vergonha na cara.
Autoria: Adão Gomes - www.nafesta.com.br
Fontes: Secretaria Municipal de Limpeza Urbana de Manaus, Câmara Municipal de Manaus, Portal Em Tempo, Exame, Jornal do Commercio, ABREMA, Águas de Manaus, Fundação Amazônia Sustentável, Instituto Socioambiental, Agite Manaus, Banzeiro News, Chumbo Grosso, Portal Você Online, Amazonas Atual, Fiscaliza Manaus.
Nota Metodológica: Editorial produzido mediante pesquisa profunda em múltiplas fontes jornalísticas, documentos oficiais e relatórios públicos, com validação cruzada de dados numéricos e contextuais. Informações consolidadas a partir de reportagens publicadas entre março e dezembro de 2025.
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