
Sistema B na Amazônia: Movimento Global Certifica 9 Mil Empresas em 94 Países, Mas Amazonas Tem Apenas Duas — Governo, Mercado e Parlamentares Explicam Por Que Ficamos Para Trás Enquanto Mundo Avança?
O Sistema B tornou-se um dos movimentos empresariais de maior crescimento global na última década. Mais de 9.000 empresas em 94 países já aderiram à certificação que transforma o lucro de fim absoluto em consequência do impacto socioambiental positivo. No Brasil, o movimento certifica 394 empresas e expande em ritmo acelerado: São Paulo lidera com 124 Empresas B, seguido por Rio de Janeiro (78), Paraná (42) e Santa Catarina (35). A América Latina concentra a maior comunidade de Empresas B do mundo, com destaque para Chile (mais de 200) e Argentina (mais de 180). O Sistema B não é nicho. É mainstream em economias desenvolvidas e emergentes.
E o Amazonas? O estado mais biodiverso do planeta, sede do maior polo industrial da Amazônia e epicentro das discussões sobre bioeconomia, possui exatamente duas empresas certificadas. Não 124 como São Paulo. Não 78 como Rio de Janeiro. Duas. A Gaia Eco e a 100% Amazônia. Esta reportagem não vem criticar. Vem perguntar: por que ficamos para trás? Onde estão as iniciativas governamentais, os programas parlamentares e os planos empresariais para posicionar o Amazonas neste movimento que já é realidade consolidada no Brasil e no mundo?
O Que É o Sistema B e Por Que Ele Cresce Globalmente
O Sistema B, operado pela B Lab Global desde 2006, certifica empresas que utilizam a força do mercado para resolver problemas sociais e ambientais. A certificação exige pontuação mínima de 80 pontos (em escala de 200) na Avaliação de Impacto B (BIA), que mede desempenho em cinco áreas: governança, trabalhadores, comunidade, meio ambiente e clientes. Não é selo de marketing. É alteração no DNA corporativo: empresas certificadas modificam seus contratos sociais para incluir compromisso legal com todos os stakeholders, não apenas acionistas. A recertificação é obrigatória a cada três anos, com auditoria independente.
O crescimento é exponencial. Em 2015, havia 1.500 Empresas B no mundo. Em 2020, eram 3.500. Em 2025, ultrapassaram 9.000. O movimento atrai desde startups de impacto até gigantes como Patagonia, Natura e Ben & Jerry's. Na América Latina, o Sistema B Brasil foi fundado em 2012 e já conta com quase 400 empresas certificadas, representando setores diversos: tecnologia, alimentos, moda, cosméticos, construção civil e serviços.
São Paulo, com 124 Empresas B, concentra o ecossistema mais robusto: acesso a investimento de impacto, rede de multiplicadores certificados, eventos de capacitação e cobertura midiática. Rio de Janeiro (78) e Paraná (42) seguem com comunidades ativas e políticas públicas estaduais de fomento. Santa Catarina (35), Minas Gerais (28) e Rio Grande do Sul (24) completam o grupo de estados com massa crítica de Empresas B. O Sul e Sudeste dominam o mapa. Norte e Nordeste são territórios em construção.
Amazonas: Duas Empresas, Zero Programas Públicos Documentados
O Amazonas possui duas Empresas B certificadas. A Gaia Eco, fabricante de embalagens biodegradáveis sediada em Manaus, foi certificada em 2023 com 103,3 pontos na BIA. A empresa prova que é viável operar no Polo Industrial de Manaus com governança de impacto verificável. A 100% Amazônia, também de Manaus, transforma ingredientes florestais não madeireiros em bioativos para cosméticos e alimentos funcionais, operando sob rastreabilidade total e comércio justo com comunidades extrativistas.
Essas duas empresas são exceções isoladas em um ecossistema de aproximadamente 500 empresas incentivadas pela Zona Franca de Manaus. O Polo Industrial movimenta R$ 147,69 bilhões por ano e emprega diretamente 131.569 trabalhadores. Abriga multinacionais globais como Samsung, Honda, Yamaha, LG, Panasonic e Whirlpool. Nenhuma certificou suas plantas amazonenses como Empresas B. A taxa de penetração do Sistema B no Amazonas é 0,4% das empresas do PIM. Comparado a São Paulo, onde o movimento é maduro e estruturado, o Amazonas está no estágio embrionário.
Suframa: Iniciativa ESG Sem Mencionar Sistema B
A Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) lançou em 2025 a iniciativa "Zona Franca + ESG", que integra critérios ambientais, sociais e de governança nas análises de projetos industriais. A Portaria nº 1.860/2025 formaliza diretrizes para o Conselho de Administração da Suframa (CAS). A iniciativa representa avanço na agenda de sustentabilidade, mas não menciona o Sistema B ou qualquer exigência de certificação de impacto como contrapartida aos incentivos fiscais.
O Relatório Integrado de Gestão 2023 da Suframa menciona 22 vezes a palavra "sustentabilidade", mas não cita "Sistema B", "Certificação B" ou "Empresa B". O Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), que destina R$ 21,3 milhões da Lei de Informática para startups de biotecnologia, também não inclui certificação de impacto como critério de seleção ou contrapartida.
Em 2025, o CAS aprovou R$ 1,25 bilhão em novos projetos, gerando 2.153 empregos diretos. Nenhum dos projetos menciona certificação B. A documentação pública da Suframa não estabelece metas quantitativas para aumentar o número de Empresas B no Amazonas.
Governo Estadual: Selo Verde Próprio Sem Padrão Internacional
O Governo do Amazonas lançou durante a COP30 em Belém, em novembro de 2025, o Plano Estadual de Bioeconomia e a Política de Transição Energética. O plano estabelece meta de reduzir em 50% o consumo de diesel na matriz energética até 2030 e posiciona a bioeconomia como novo eixo de desenvolvimento. A Assembleia Legislativa aprovou a Lei nº 7.949/2025, criando o Programa de Incentivo à Indústria Sustentável da ZFM (PIIS-ZFM) e instituindo o "Selo Verde da ZFM".
A legislação estabelece critérios de gestão ambiental, responsabilidade social e ecoeficiência para empresas do Polo Industrial, mas não define padrões técnicos específicos nem estabelece verificação independente obrigatória. O texto legal não menciona integração com sistemas de certificação internacional como o Sistema B. O selo será concedido pela Secretaria de Meio Ambiente do Amazonas (Sema) mediante análise documental interna, sem previsão de auditoria externa ou publicação de métricas comparativas.
O Plano de Bioeconomia é tecnicamente robusto e define oito eixos estratégicos, mas não estabelece meta de certificação de Empresas B. Não há registro público de programa estadual de apoio técnico ou linha de crédito específica para empresas que buscam certificação B.
Prefeitura de Manaus: Ausência de Programa Específico
Busca no Portal da Transparência da Prefeitura de Manaus pelos termos "Sistema B", "Empresa B" ou "Certificação B" retorna zero resultados. O Programa Manaus Mais Empreendedora, principal iniciativa municipal de fomento empresarial, não menciona o Sistema B em sua documentação pública. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semmas) concentra esforços em licenciamento ambiental urbano e gestão de resíduos sólidos, sem programa documentado de fomento a empresas regenerativas certificadas.
Manaus é signatária do Pacto Global de Prefeitos pelo Clima e a Energia, mas não há registro público de política municipal vinculando o compromisso climático à certificação de impacto empresarial.
Parlamentares: Sistema B Fora da Agenda Legislativa
A bancada federal do Amazonas possui oito deputados e três senadores. Busca nos portais da Câmara dos Deputados e do Senado Federal pelos termos "Sistema B", "Empresa B" e "Certificação B" retorna um único projeto relacionado: o PL 4858/2023, do deputado Sidney Leite (PSD-AM), que propõe a criação da Zona Franca da Bioeconomia com incentivos fiscais para empresas de biotecnologia. O projeto não menciona certificação de impacto como contrapartida.
Na Assembleia Legislativa do Amazonas, o deputado estadual Dr. George Lins (União Brasil) é autor da Lei nº 7.949/2025 que criou o Selo Verde. A legislação representa primeiro marco estadual sobre sustentabilidade industrial, mas institui certificação estadual sem padrões internacionais de verificação. Nenhum outro projeto de lei estadual em tramitação menciona o Sistema B ou propõe incentivos para certificação de impacto empresarial.
Os senadores Eduardo Braga (MDB), Omar Aziz (PSD) e Eduardo Gomes (PL) não possuem projetos, requerimentos ou pronunciamentos registrados sobre o Sistema B nas bases de dados do Senado Federal.
Mercado: Entre a Conformidade ISO e a Governança de Impacto
O Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) lançou em 2025 o programa "ZFM + ESG" em parceria com a Suframa, oferecendo capacitação em práticas ESG para empresas do Polo Industrial. Busca no portal do Cieam por "Sistema B" retorna zero resultados. A documentação pública do programa indica foco em conformidade com normas ISO 14001 e relatórios GRI, sem menção ao Sistema B ou trilha específica para certificação de impacto.
A Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam) não possui registro público de programa de apoio ao Sistema B. Busca no portal da entidade por "Sistema B" retorna zero resultados. A atuação documentada da Fieam concentra-se na defesa dos incentivos fiscais da Zona Franca no Congresso Nacional.
Nenhuma das multinacionais instaladas em Manaus — Samsung, Honda, Yamaha, LG, Panasonic, Whirlpool — possui certificação B para suas plantas amazonenses, embora muitas mantenham programas globais de sustentabilidade e publiquem relatórios ESG anuais.
Por Que São Paulo Tem 124 e o Amazonas Tem 2?
A comparação com São Paulo revela múltiplos fatores estruturais. O primeiro é a concentração de ecossistema de impacto. São Paulo possui rede consolidada de investidores de impacto, aceleradoras focadas em negócios sustentáveis, universidades com linhas de pesquisa em economia regenerativa e cobertura midiática especializada. O Amazonas não desenvolveu esse ecossistema.
O segundo é a diferença de perfil empresarial. São Paulo concentra startups de tecnologia, serviços criativos e empresas de consumo consciente — setores com maior aderência à lógica do Sistema B. O Amazonas concentra indústria de manufatura em massa, controlada por multinacionais com processos globais rígidos e menor flexibilidade para alteração de governança.
O terceiro é a ausência de políticas públicas de fomento documentadas. São Paulo possui linhas de crédito estaduais para empresas que buscam certificação. Busca em editais do Governo do Amazonas, da Afeam (Agência de Fomento do Amazonas) e do Banco da Amazônia não retorna linha específica para Sistema B.
O quarto fator é a invisibilidade do movimento. O Sistema B Brasil não possui escritório ou representação no Amazonas. Não há multiplicadores certificados registrados publicamente no estado. O site do Sistema B Brasil lista multiplicadores em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina, mas zero no Norte do Brasil.
Oportunidade Documentada, Ação Ausente
O Amazonas possui todos os ingredientes para liderar o Sistema B no Brasil. A biodiversidade é ativo único. A bioeconomia está em ascensão. O Polo Industrial abriga 500 empresas. A legislação ambiental é robusta. O Plano de Bioeconomia estabelece metas ambiciosas. Mas a tradução desse potencial em empresas certificadas não acontece.
A distância entre São Paulo (124 Empresas B) e Amazonas (2) não é geográfica. É estratégica. É resultado de escolhas documentadas — ou da ausência delas nos registros públicos. Governos criam selos próprios sem integrar sistemas internacionais. Parlamentares defendem incentivos sem modernizar contrapartidas. Empresas optam por conformidade mínima em vez de liderança regenerativa. E o movimento que certifica 9.000 empresas no mundo permanece marginal no estado que mais precisa provar que desenvolvimento econômico e conservação ambiental são compatíveis.
Esta reportagem documenta a ausência factual de programas, políticas e iniciativas relacionadas ao Sistema B no Amazonas. A pergunta permanece aberta: o estado vai criar as condições para mudar essa realidade ou continuará assistindo de fora enquanto outros estados consolidam ecossistemas de impacto?
Adão Gomes - MTB-AM 000191
Framework Strategic Foresight & Cognitive Governance
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