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Janete Fernandes: A Grande Dama que Ensinou Manaus a Sentar-se à Mesa

Era o lugar. Janete criou algo que faltava à capital amazonense: um espaço onde a alta gastronomia dialogava com a alma da floresta, onde executivos da Zona Franca dividiam mesa com artistas, onde o Arcebispo de Manaus jantava ao lado de Selma Reis, onde políticos articulavam e amigos

13/12/2025 às 21h50
Por: Adão Gomes
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Criada por IA Adão Gomes
Criada por IA Adão Gomes

Janete Fernandes: A Grande Dama que Ensinou Manaus a Sentar-se à Mesa

Por Adão Gomes

Há pessoas que não apenas empreendem — elas civilizam. Janete Fernandes é uma dessas raras figuras que, sem alarde, sem pose, construiu um legado que transcende os limites físicos de um restaurante e se espalha pela forma como uma cidade inteira aprendeu a valorizar o ato de comer bem.

Entre o início dos anos 2000 e provavelmente até 2013/2014, quando a Avenida Djalma Batista consolidava-se como o coração pulsante da Manaus moderna, o Palazzolo não era apenas mais um endereço no número 1375, ali no Manaus Casa Shopping. Era o lugar. Janete criou algo que faltava à capital amazonense: um espaço onde a alta gastronomia dialogava com a alma da floresta, onde executivos da Zona Franca dividiam mesa com artistas, onde o Arcebispo de Manaus jantava ao lado de Selma Reis, onde políticos articulavam e amigos celebravam.

O Palazzolo era, antes de tudo, a extensão da personalidade de Janete: acolhedor sem ser piegas, sofisticado sem ser intimidador, regional sem ser folclórico.

A Cozinha que Falava Duas Línguas

Quem viveu aquela época não esquece: o Pirarucu à Magia Amazônica não era apenas um prato — era um manifesto. Lombo de pirarucu fresco grelhado com crosta de castanha-da-amazônia, risoto de banana da terra com queijo coalho, pesto de cariru e tomate concassé. Era a prova viva de que a técnica italiana e o ingrediente amazônico não precisavam brigar; bastava alguém com talento e coragem para apresentá-los.

E Janete tinha ambos.

Aquele pesto de cariru, por exemplo, era genialidade pura. Onde a tradição italiana pedia manjericão genovês, ela oferecia a hortaliça amazônica. Onde o risoto exigia queijo parmesão, ela colocava coalho nordestino e banana da terra. E funcionava. Meu Deus, como funcionava.

Ela serviu massas impecáveis, risotos cremosos na medida exata, um filé à parmegiana que virou referência na cidade. Mas, mais do que isso, ela provou que o pirarucu podia vestir smoking. Que a castanha-da-amazônia merecia estar numa crosta crocante. Que o cariru, humilde hortaliça do mercado, podia virar pesto servido em prato de porcelana.

Isso não era apenas cozinhar. Era educar o paladar de uma geração.

A Líder que Ninguém Viu Chegar

Mas Janete Fernandes jamais se contentou em ser apenas a dona do melhor restaurante italiano da cidade. Enquanto outros empresários brigavam por fatia de mercado, ela entendia algo maior: um setor forte eleva todos os barcos.

Como presidente da ABRASEL-AM (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), especialmente ativa entre 2011 e 2015, Janete transformou a relação entre o poder público e os empresários da gastronomia. Quando o PROCON poderia ter sido inimigo, ela fez dele parceiro — assinando Termos de Ajustamento de Conduta que educavam em vez de punir, que orientavam em vez de multar.

Ela levou delegações de empresários amazonenses para congressos em Brasília, colocando Manaus no mapa nacional da gastronomia. Ela trouxe chefs renomados, como o italiano Rosario Tessier, para workshops que profissionalizaram cozinheiros locais. Em novembro de 2013, o Palazzolo ainda sediava cursos da ABRASEL e participava ativamente do festival "Bar em Bar" — mostrando que Janete nunca separou o negócio próprio da missão coletiva.

Ela fez do Guia de Gastronomia da ABRASEL uma obra de arte, convidando Rui Machado para estampar jaraquis e tacacás nas capas — transformando ingredientes cotidianos em símbolos culturais. Trouxe cursos de inglês e espanhol para garçons, preparando o setor para a Copa de 2014, quando o mundo viria até Manaus.

Janete entendeu o que poucos entendem: que defender o setor é defender a cidade.

A Generosidade que Não Pede Recibo

E aqui entra algo que poucos sabem, mas que precisa ser dito: Janete Fernandes foi — e continua sendo — apoiadora silenciosa de jornalistas e colunistas em início de carreira.

Quando o nafesta.com.br ainda engatinhava na internet, quando ser portal de notícias era aposta de visionário (ou louco), Janete estava lá. Não apenas como anunciante, mas como quem acreditava no projeto. Ela entendia que mídia independente era vital para a democracia e para o próprio setor.

Quantas vezes ela recebeu colunistas sociais, ofereceu mesa, vinho, história? Quantos jornalistas novos tiveram no Palazzolo o primeiro contato com o que significava "gastronomia de verdade"? Quantas matérias foram fechadas naquele salão, entre um risoto e uma taça de tinto?

Janete nunca pediu crédito por isso. Mas quem viveu, sabe.

Ela formou plateias. Educou críticos. Criou uma geração que aprendeu a diferenciar uma massa al dente de uma papa sem gosto, um dadinho de tapioca com geleia de cupuaçu bem executado de um petisco qualquer de boteco.

O Vazio que Ficou (E a Oportunidade que Persiste)

Quando o Palazzolo encerrou suas atividades — provavelmente entre 2013 e 2014, dando lugar ao que hoje é o Pátio Gourmet no mesmo endereço da Djalma Batista — Manaus perdeu mais do que um restaurante. Perdeu um ritual. Perdeu um ponto de encontro onde o poder, a cultura e a boa mesa se cruzavam naturalmente.

O próprio destino do imóvel simboliza algo maior: a transição da Djalma Batista de "avenida de restaurantes clássicos" para "hubs gastronômicos de mercado". Uma mudança de época. Uma perda de alma, talvez.

Hoje, em 2024, olhamos para trás e reconhecemos: Janete Fernandes foi pioneira. Ela antecipou o movimento de valorização dos ingredientes regionais que hoje domina a alta gastronomia mundial. Ela profissionalizou um setor que era amador. Ela provou que mulher empreendedora não precisa de masculinidade emprestada para liderar — basta competência e visão.

E aqui vai uma provocação carinhosa, mas necessária:

Janete, Manaus precisa de você de volta.

Não precisa ser o Palazzolo de antes, com salão grande e eventos magnos. Mas um Palazzolo intimista — 30, 40 lugares, menu degustação, aquele pirarucu com crosta de castanha que ninguém mais faz, aquele risoto que você ensinou a cidade a respeitar, aquele pesto de cariru que era pura magia amazônica.

Um lugar onde a nova geração de empresários e políticos possa aprender o que significa civilidade à mesa. Onde jovens chefs possam ver a mestra em ação. Onde quem viveu os anos 2000 possa matar a saudade — e quem não viveu possa entender por que ainda falamos tanto daquela época.

Não é nostalgia. É necessidade.

Porque, veja bem, Janete: você não abria apenas um restaurante. Você abria escolas. E Manaus, hoje tão caótica, tão barulhenta, tão perdida na falta de referências de bom gosto, precisa voltar a sentar-se à sua mesa.

O Agradecimento que Nunca Envelhece

Fica aqui, então, mais do que uma homenagem: um agradecimento público.

Obrigado por cada reunião na qual você defendeu o setor com firmeza e elegância. Obrigado por cada prato que elevou o padrão do que comíamos. Obrigado por acreditar em jornalistas iniciantes, em portais sem estrutura, em sonhos que pareciam impossíveis.

Obrigado por ter sido âncora de civilidade numa cidade que às vezes esquece suas próprias raízes.

O Palazzolo pode ter fechado as portas. Mas a escola que você criou permanece viva em cada chef que entende de técnica, em cada empresário que trata funcionário com respeito, em cada cliente que sabe diferenciar um bom vinho de um rótulo qualquer.

Você não apenas alimentou Manaus, Janete.

Você ensinou Manaus a sentar-se à mesa.

E por isso, você sempre terá um lugar reservado — não apenas na memória afetiva de uma geração, mas na história da gastronomia amazonense.

Com admiração e gratidão,


Autoria: Adão Gomes - www.nafesta.com.br (13/12/2024)


P.S.: Janete, se um dia você reabrir — nem que seja uma versão menor, mais íntima — me avisa. Eu quero ser o primeiro cliente. E dessa vez, vou fotografar aquele pirarucu. Porque em 2000, a gente só sabia comer. Hoje, a gente também sabe registrar.

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