
SALAZAR 2026: A EQUAÇÃO DO CAOS
1 milhão de seguidores × 27% no Senado ÷ zero leis aprovadas = o político que ninguém sabe se abraça ou foge, mas todos calculam quanto vale
Por Adão Gomes | nafesta.com.br | Dezembro de 2025
Alexandre da Silva Salazar, 42 anos, ex-sargento da Polícia Militar do Amazonas, não é um vereador convencional. É uma variável obrigatória na equação eleitoral de 2026 — e todo o mercado político amazonense está fazendo a mesma conta: abraçar ou fugir? O nome carrega peso histórico. Salazar, do latim e do basco, significa "casa antiga" ou "solar velho". Na história contemporânea, evoca o ditador português António de Oliveira Salazar, que governou com mão de ferro por 36 anos. Na ficção popular, remete à Casa Slytherin de Harry Potter — ambição, astúcia, purismo. O Salazar amazônico parece combinar elementos de ambos: autoridade de farda e algoritmo de serpente digital.
Eleito em 2024 com 22.594 votos — o vereador mais votado da história recente de Manaus —, Salazar transformou a Câmara Municipal (CMM) em extensão do seu feed. Com 1 milhão de seguidores no Instagram, 991 mil no YouTube e presença agressiva em todas as plataformas digitais, ele ocupa a 12ª posição no ranking dos políticos mais influentes do Brasil, segundo estudo da Zeeng em parceria com a MonitoraBR, que analisou 1,8 bilhão de interações no primeiro semestre de 2025. São 64.825 interações médias por publicação — número que supera senadores, governadores e ministros de Estado.
O alcance transcende fronteiras estaduais. É nacional. E o impacto político já se materializa nas pesquisas: 27% das intenções de voto para o Senado em cenário estimulado, conforme levantamento Real Time Big Data; 14% para deputado federal segundo a Perspectiva Mercado e Opinião, liderando ao lado do governador Wilson Lima. Sua força eleitoral, contudo, é cirurgicamente urbana: 21% em Manaus contra apenas 3% no interior do estado. É um fenômeno de capital — e de algoritmo.
A semiótica da performance é calculada: vídeos curtos com farda tática, dedo em riste, trilha sonora de filme de ação, edições dramáticas. A marreta — símbolo que ele carrega como emoji político — transmite a mensagem de "vou quebrar o sistema". O padrão emocional dos posts virais segue fórmula identificável: aproximadamente 70% de raiva explosiva contra "malandros" diversos; 20% de vitimismo performático; 10% de denúncias de impacto imediato. Posts sobre projetos de lei técnicos raramente ultrapassam 50 mil visualizações. O público demonstra preferir o justiceiro ao legislador.
A bancada federal do Amazonas tem hoje 8 cadeiras na Câmara dos Deputados — número que subirá para 10 a partir de 2027, conforme o PLP 117/2023 aprovado com base no Censo 2022. Os atuais ocupantes, eleitos em 2022 com mandato até 2027, são: Amom Mandel (Cidadania), com 288.555 votos e recorde histórico estadual; Capitão Alberto Neto (PL), reeleito; Saullo Vianna (União Brasil), com 118.043 votos; Fausto Jr. (União Brasil); Silas Câmara (Republicanos), reeleito; Adail Filho (Republicanos); Sidney Leite (PSD), reeleito; e Átila Lins (PSD), também reeleito.
Se Salazar entrar na disputa federal com potencial estimado de 200 a 250 mil votos — projeção baseada em sua votação municipal multiplicada pelo fator de conversão histórico de engajamento digital —, a aritmética eleitoral é implacável. O coeficiente eleitoral do Amazonas em 2022 ficou em torno de 120 mil votos por cadeira. Um candidato com esse volume não apenas garante a própria vaga: pelo sistema proporcional, ele puxa mais um ou dois nomes da mesma coligação.
A pergunta que circula nos bastidores de Brasília e Manaus é matematicamente inevitável: se Salazar entra com força, quem sai? Mesmo com o aumento para 10 cadeiras, a entrada de um nome com esse potencial de votos redesenha completamente o tabuleiro. Os atuais deputados sabem fazer contas. E os números de Salazar tiram o sono de quem planeja a reeleição.
O cenário político amazonense enfrenta um dilema de teoria dos jogos: estar com Salazar pode significar surfar uma onda de 200 a 300 mil votos de carona; estar contra é arriscar virar alvo da marreta digital e perder espaço no algoritmo que domina a atenção do eleitorado jovem. O problema estrutural é que abraçar Salazar equivale a abraçar volatilidade — os registros públicos mostram que ele ataca aliados circunstanciais, troca de adversário a cada ciclo de 45 dias aproximadamente, filma bastidores e transforma colegas em conteúdo viral.
Os embates públicos documentados são extensos. Em novembro de 2025, o coronel da reserva Alfredo Menezes — ex-candidato a vice-prefeito de Manaus — questionou em entrevista ao programa Meio Dia: "Tem conteúdo ou só faz show?" Chamou Salazar de "meio voto de protesto" e questionou seu preparo para cargos maiores. O vereador Sassá da Construção tornou-se alvo após desafio físico público e viu Salazar posar para foto em sua cadeira no plenário. O governador Wilson Lima foi classificado publicamente como "atraso de vida" em vídeo que acumulou milhões de visualizações. O prefeito David Almeida entrou na linha de fogo após episódio em que, segundo registros jornalísticos, teria chamado o vereador de "maconheiro" — e recebeu como resposta um pedido formal de impeachment protocolado na CMM.
"Eu vou ser o pracinha que vai melar a campanha de vocês dois. O bagulho vai ficar doido."
— Declaração pública do vereador Sargento Salazar direcionada ao governador e ao secretário de Segurança, novembro de 2025
A história política do Amazonas — e do Brasil — está repleta de alianças que pareciam impossíveis até a véspera de se concretizarem. Adversários de palanque tornaram-se parceiros de chapa; inimigos declarados dividiram secretarias; quem prometia "nunca" acabou assinando apoio em cartório. O pragmatismo eleitoral, quando o objetivo é conquistar ou manter poder, frequentemente dissolve divergências que pareciam irreconciliáveis.
Nesse contexto, observadores do cenário amazonense levantam hipóteses que soam, hoje, como ficção política. Seria possível imaginar, em alguma configuração de 2026, aproximações entre atores que atualmente trocam farpas públicas? Alguém que hoje ataca poderia, amanhã, ser cortejado — ou cortejar — em nome de uma composição eleitoral vantajosa? A pergunta não é retórica: é matemática. Quem tiver Salazar ao lado terá acesso a 1 milhão de seguidores e potencial de centenas de milhares de votos. Quem tiver contra, enfrentará a marreta no feed todos os dias até outubro.
O ditado popular amazonense resume: na política, fazem até boi voar. E neste tabuleiro de 2026, nenhuma peça está definitivamente posicionada. Os cálculos seguem sendo feitos — em gabinetes, em grupos de WhatsApp, em reuniões discretas. A única certeza é a incerteza. E Salazar, ao manter indefinida sua escolha entre Federal, Estadual ou Senado, alimenta deliberadamente esse ambiente de especulação permanente.
A construção do fenômeno Salazar assenta-se em base documental extensa e verificável. Esta reportagem cruzou mais de 120 fontes primárias — portais jornalísticos, documentos oficiais da CMM, Portal da Transparência de Manaus, registros do TSE, processos públicos do TJAM, métricas de redes sociais auditáveis e declarações públicas registradas em vídeo. Os dados factuais que sustentam a análise:
Histórico judicial de conhecimento público: Em 2019, durante ocorrência policial que estava sendo filmada, houve perseguição que resultou em colisão com motocicleta de dois suspeitos. Salazar efetuou disparos que vitimaram Felipe Kevin de Oliveira Costa, 27 anos. O Ministério Público do Amazonas apresentou denúncia por homicídio. Em setembro de 2025, conforme noticiado pelos portais BNC Amazonas e Amazonas Atual, juiz proferiu sentença de absolvição citando "cumprimento do dever legal". O caso tramitou publicamente.
Decisão judicial sobre conteúdo digital: Conforme reportagem do portal Laranjeiras News, a Justiça determinou a retirada de publicação do vereador que continha acusações consideradas inverídicas contra o governador Wilson Lima.
Registros de gastos públicos: Dados disponíveis no Portal da Transparência da Câmara Municipal de Manaus, conforme reportagens do CM7 Brasil, indicam repasses de verba de gabinete a pessoa identificada como sócio do parlamentar, além de pagamentos mensais de R$ 16 mil à locadora de motocicletas California Motors — empresa promovida pelo vereador em suas redes sociais. Despesas adicionais com combustível ultrapassam R$ 6 mil mensais, segundo os documentos públicos.
Produtividade legislativa registrada: Conforme dados do sistema SAPL da CMM, em 11 meses de mandato o vereador apresentou 4 Projetos de Lei: regularização fundiária (PL 464/2025), auxílio-fardamento para policiais militares, exame toxicológico obrigatório para servidores municipais e o Programa Buraco Zero para manutenção viária. Até o fechamento desta reportagem, nenhum dos projetos havia sido aprovado em votação final.
O mercado político opera com cálculos probabilísticos. Com 1 milhão de seguidores altamente engajados e potencial estimado de 200 a 300 mil votos em 2026, Salazar configura-se como variável de alta volatilidade no tabuleiro amazonense. A conta que todos fazem é simples: quem compuser chapa com ele tende a capturar parcela significativa do eleitorado digital; quem se posicionar frontalmente contra arrisca tornar-se alvo recorrente para uma audiência de 65 mil interações médias por publicação.
A indefinição declarada sobre 2026 — Câmara Federal? Assembleia Estadual? Senado? — pode ser interpretada como elemento de valorização estratégica. Mantendo o mercado em suspense, o capital político permanece em alta cotação. O PL — partido ao qual é filiado e que tem Jair Bolsonaro como principal liderança nacional — o apresenta publicamente como "novo sangue" da legenda, ainda que o vereador mantenha embates públicos com figuras do próprio partido.
Para os atuais deputados federais do Amazonas, a equação é existencial: se Salazar decidir pela Câmara, alguém ficará de fora. Mesmo com o aumento de duas cadeiras previsto para 2027, um candidato com esse potencial de votos não apenas ocupa uma vaga — ele reorganiza toda a distribuição de cadeiras pelo quociente partidário. E para quem hoje ocupa posições mais frágeis na bancada, a entrada de Salazar pode significar o fim da carreira federal.
Para eleitores, analistas políticos, jornalistas e os próprios concorrentes, alguns indicadores objetivos merecem acompanhamento:
Definição formal de candidatura: A escolha oficial entre Câmara Federal, Assembleia Estadual ou Senado revelará o cálculo de risco-retorno. Prazo provável: convenções partidárias do primeiro semestre de 2026.
Movimentações de aproximação ou distanciamento: Como se comportarão, nos próximos meses, aqueles que hoje figuram como alvos públicos? E aqueles que disputam as mesmas cadeiras? O xadrez está em movimento permanente.
Sustentabilidade do engajamento: Perfis políticos de alta exposição digital apresentam ciclos de atenção de 2 a 3 anos. O ciclo de Salazar iniciou-se em 2024. A manutenção ou declínio das métricas será termômetro relevante.
Sargento Salazar é, em última análise, produto de seu tempo e de seu contexto. Um espelho das contradições da política brasileira na era digital, onde métricas de engajamento competem com métricas de produtividade legislativa, onde a marreta simbólica disputa espaço com o martelo regimental do plenário, onde o algoritmo das redes sociais influencia — talvez tanto quanto o voto — quem ascende e quem descende no tabuleiro do poder.
A equação de 2026 permanece aberta: 1 milhão de seguidores × 27% nas pesquisas para Senado ÷ zero leis aprovadas = resultado a calcular. Cada ator político do Amazonas — aliados, adversários, indecisos — faz sua própria conta, atribui seus próprios pesos, chega a suas próprias conclusões. Os 8 deputados federais atuais olham para os números e fazem as contas. Os pré-candidatos a estadual medem forças. Os caciques partidários avaliam custos e benefícios.
Enquanto isso, Salazar posta mais um vídeo. A marreta gira. O algoritmo entrega. E Manaus — entre o riso, o espanto e o cálculo — clica em compartilhar.
O resultado definitivo, só as urnas de outubro de 2026 poderão revelar. Até lá, a única certeza é que todos estão fazendo contas. E ninguém quer ficar de fora da equação.
Esta reportagem foi produzida mediante consulta e cruzamento de mais de 120 fontes primárias independentes, incluindo: portais jornalísticos de abrangência regional e nacional (G1 Amazonas, CM7 Brasil, Portal Amazonas1, Em Tempo, Fato Amazônico, Revista Cenarium, Agência Cenarium, BNC Amazonas, Radar Amazônico, Portal do Holanda, Real Time 1, Laranjeiras News, O Convergente, Direto ao Ponto, Blog do Pávulo, O Primeiro Portal, Vocativo, Metrópoles, Portal Marcos Santos, Portal do Zacarias); documentos oficiais da Câmara Municipal de Manaus (CMM), Assembleia Legislativa do Amazonas (ALEAM) e Câmara dos Deputados; registros do Portal da Transparência de Manaus; dados eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE); processos públicos do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM); métricas verificáveis de redes sociais; pesquisas eleitorais de institutos registrados (Perspectiva Mercado e Opinião, Real Time Big Data, Instituto Direto ao Ponto, IPEN/G6); e o estudo "100 Políticos Mais Influentes do Brasil no Instagram" da Zeeng/MonitoraBR (jan-jun/2025, 1,8 bilhão de interações). Todas as afirmações factuais são sustentadas por ao menos duas fontes independentes ou documentos oficiais de acesso público.
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