
EDITORIAL OPINATIVO
CHEGA DE IGNORÂNCIA: AMAZÔNIA NÃO É PULMÃO DO MUNDO E A ZONA FRANCA DE MANAUS É SOLUÇÃO, NÃO PROBLEMA – A INDIGNAÇÃO DE QUEM ESCOLHEU VIVER AQUI HÁ MAIS DE 40 ANOS
Por Adão Gomes
Há mais de quatro décadas escolhi a Amazônia como lar. Não por acaso, mas por convicção. E nestes 40 anos de vivência diária, de reportagens nas comunidades ribeirinhas, de coberturas no coração da floresta, de conversas com trabalhadores do Polo Industrial de Manaus, aprendi uma verdade que precisa ser dita com toda a energia: a defesa da Amazônia não se faz com discursos vazios proferidos em gabinetes climatizados do Centro-Sul do país. Se faz com conhecimento, presença e compromisso com quem vive, produz e preserva esta região.
Por isso, ao ver o prefeito David Almeida erguer a voz na COP30 contra os ataques sistemáticos à Zona Franca de Manaus, senti que chegou a hora de unir minha indignação à dele. Não como simples apoio político, mas como grito de quem testemunha diariamente a hipocrisia nacional contra o modelo que mantém a floresta em pé, gera 500 mil empregos e representa a quinta maior economia do Brasil.
É hora de confrontar, com dados irrefutáveis e argumentos científicos, a avalanche de desinformação que se repete ciclicamente sempre que o Brasil precisa de ajustes fiscais. É hora de desmascarar aqueles que jamais pisaram em Manaus, que desconhecem a imensidão amazônica, mas se arrogam o direito de julgar e condenar o único modelo de desenvolvimento que funciona sem desmatar, sem queimar, sem destruir.
O Mito que Precisa Morrer: Amazônia Não é o Pulmão do Mundo
Comecemos pela mentira mais repetida e que, paradoxalmente, mais prejudica a Amazônia: a farsa de que somos o "pulmão do mundo". Esta expressão, cunhada em 1971 sem embasamento científico, tornou-se uma prisão conceitual que impede o mundo de compreender a verdadeira importância da floresta.
A ciência é categórica e não deixa margem para devaneios romantizados. Pesquisadores como Philip Fearnside do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Yadvinder Malhi da Universidade de Oxford e Michael Coe do Woods Hole Research Center são unânimes: a contribuição líquida de oxigênio da Amazônia é aproximadamente zero.
Por quê? Porque a floresta está em clímax ecológico. O oxigênio que ela produz durante o dia pela fotossíntese é integralmente consumido pela própria floresta através da respiração noturna das plantas e da decomposição da matéria orgânica por microrganismos. É um sistema em equilíbrio perfeito. O oxigênio que respiramos hoje não vem da produção atual das florestas, mas do acúmulo gerado há bilhões de anos pelas cianobactérias nos oceanos.
Então, de onde vem o oxigênio que mantém a vida na Terra? Das algas marinhas, responsáveis por 54% da produção global de oxigênio. Os oceanos, não as florestas, são os verdadeiros pulmões do planeta. A Amazônia produz oxigênio, mas o consome integralmente. Não exporta oxigênio para o mundo. Esta é a verdade científica que incomoda porque desmonta o discurso simplista e mal-informado.
E por que isso importa? Porque quando se chama a Amazônia de "pulmão do mundo" com base em uma premissa falsa, todo o debate que se segue fica contaminado pela desinformação. Pior: cria-se a expectativa irreal de que devemos preservar a floresta "para produzir oxigênio para o planeta", quando a verdadeira razão é infinitamente mais complexa e estratégica.
A Amazônia não é importante porque produz oxigênio para o mundo. Ela é vital porque armazena 120 bilhões de toneladas de carbono que, se liberadas, acelerariam catastroficamente o aquecimento global. Ela é essencial porque seus rios voadores transportam umidade que irriga o Centro-Sul brasileiro, garantindo as chuvas que enchem as represas hidrelétricas e abastecem a agricultura. Ela é insubstituível porque abriga 10% da biodiversidade mundial e oferece serviços ecossistêmicos que regulam o clima continental.
Mas nada disso é compreendido por quem repete, como papagaio, que somos o "pulmão do mundo". E é justamente essa ignorância básica que sustenta os ataques à Zona Franca de Manaus.
A Zona Franca sob Ataque: Festival de Desinformação
O prefeito David Almeida não exagerou ao classificar as críticas recentes como "festival de desinformação". De fato, a cada ciclo de ajuste fiscal federal, a Zona Franca de Manaus é tratada como bode expiatório, acusada de representar "renúncia fiscal" insustentável de R$ 26 bilhões anuais.
Esta narrativa, amplificada por veículos de comunicação do eixo Rio-São Paulo, é tão desonesta quanto reveladora. Vejamos os fatos que os críticos omitem:
Primeiro, a chamada "renúncia fiscal" da ZFM representa apenas 5,11% do total de gastos tributários federais. Enquanto isso, a renúncia fiscal provocada pelo próprio governo federal para atender interesses políticos ultrapassa R$ 282 bilhões anuais – dez vezes superior à da Zona Franca. A região Sudeste, a mais rica do país, consome mais da metade de toda a renúncia fiscal brasileira, enquanto a região Norte, representando dois terços do território nacional, utiliza apenas 13%.
Segundo, o termo "renúncia" é em si uma farsa semântica. Como explicou o economista Frederico Aguiar durante reunião na Suframa com economistas do Corecon-SP: "Quando divulgam que a ZFM gerou X bilhões em renúncia fiscal, muita gente acha que se fechar a ZFM esses X bilhões ficariam disponíveis. Na verdade, a tal renúncia é calculada sobre impostos que seriam pagos se os produtos fossem fabricados em outro lugar. Se nada fosse produzido na ZFM, não haveria renúncia."
Terceiro, o retorno econômico é indiscutível. Para cada Real de imposto "renunciado" na ZFM, retornam R$ 1,68 de receita para a região. O Amazonas arrecadou R$ 21 bilhões em impostos federais em 2023, mas recebeu apenas R$ 7 bilhões em transferências constitucionais de volta. O estado é um dos poucos superavitários na balança de arrecadação federal. Não somos um problema fiscal, somos solução.
Quarto, o impacto ambiental é positivo e mensurável. Estudos empíricos demonstram correlação negativa entre industrialização da ZFM e desmatamento: cada aumento de 1% na população ocupada formal na indústria reduz o desmatamento em 0,056% no Amazonas. A concentração industrial em Manaus desvia a pressão sobre áreas preservadas, mantendo 97% do território amazonense intacto.
Mas esses dados não interessam aos críticos de plantão. Eles preferem a narrativa simplista de que "bilhões estão sendo desperdiçados" sem contextualizar que a Zona Franca é o único modelo constitucional de desenvolvimento regional que funciona sem explorar recursos naturais de forma predatória.
A Hipocrisia da COP30 e o Desconhecimento Nacional
A realização da COP30 em Belém deveria ser motivo de celebração para toda a Amazônia. Em vez disso, tornou-se palco para mais uma rodada de ataques à Zona Franca de Manaus.
A contradição é gritante. Enquanto líderes mundiais debatem "economia da floresta em pé" e "bioeconomia sustentável" em Belém, críticos oportunistas publicam artigos como o de Bruno Carraza no Valor Econômico, questionando: "COP em Belém e bilhões para ar-condicionado em Manaus".
A resposta veio firme do deputado Adjuto Afonso na Assembleia Legislativa do Amazonas: "Ele não conhece a nossa realidade, portanto, não tem o direito de estar nos criticando". E complementou com dados que deveriam envergonhar qualquer jornalista sério: as empresas instaladas em Manaus cumprem normas rigorosas de compensação ambiental, gestão de resíduos e eficiência energética, além de financiar centros de pesquisas, reflorestamento e inovação em biotecnologia, economia circular e energia limpa.
Manaus não apenas preserva. Manaus lidera. A capital chegou à COP30 com resultados objetivos que os críticos ignoram por conveniência. Preserva mais de 90% do território com vegetação nativa. Instalou 12 ecobarreiras que retêm 300 toneladas de resíduos por mês nos igarapés, impedindo que o lixo chegue ao Rio Negro. Plantou 46 mil novas árvores desde 2021, sendo 26 mil apenas em 2025. Construiu o primeiro aterro sanitário 100% público e técnico da região Norte, com capacidade para 2.600 toneladas diárias e tecnologia para reduzir emissões de metano.
Enquanto isso, o prefeito David Almeida defendia na COP30 uma governança multinível mais efetiva entre União, Estados e municípios, destacando que "as pessoas vivem nas cidades, e é nos municípios que os impactos da crise climática se materializam". Ele apresentou o Plano Municipal de Ação Climática, um dos mais avançados da região Norte, com metas alinhadas ao Acordo de Paris. Anunciou a Bolsa de Créditos de Carbono da Amazônia, que visa captar US$ 500 milhões até 2028 para florestas, adaptação e infraestrutura natural.
Estas são ações concretas, mensuráveis, verificáveis. Não são promessas vazias. Mas aos olhos dos críticos que jamais pisaram em Manaus, tudo isso é irrelevante diante da "renúncia fiscal" que tanto os incomoda.
O Desconhecimento Como Arma de Ataque
O economista Haroldo Silva resumiu o problema com precisão cirúrgica: "Se eu pudesse resumir em uma palavra a forma como o Brasil enxerga a ZFM, seria: miopia. O País ainda não consegue perceber de forma plena o que a Zona Franca representa."
Esta miopia não é acidental. É estrutural. A própria Suframa reconhece o problema a ponto de organizar "press trips" levando jornalistas de Brasília (Correio Braziliense, Metrópoles) para Manaus, com o objetivo explícito de "ampliar o conhecimento midiático nacional" sobre o modelo. Se até a autarquia federal responsável pela Zona Franca precisa combater o desconhecimento da mídia nacional, algo está profundamente errado.
O problema começa pela geografia. A imensidão amazônica é incompreensível para quem vive no Centro-Sul. São 1,5 milhão de km² só no Amazonas – três vezes o tamanho de Espanha. A logística é brutal: dependemos de transporte fluvial e aéreo para a maior parte do território. O custo de levar um produto de Manaus a São Paulo equivale, em muitos casos, a exportá-lo para Miami. Estas condições justificam, em qualquer análise séria, os incentivos fiscais que compensam as desvantagens estruturais.
Mas os críticos de gabinete não querem saber de especificidades regionais. Para eles, o Brasil é um território homogêneo onde as mesmas regras devem valer para todos, ignorando que a Constituição Federal prevê tratamento diferenciado justamente para corrigir assimetrias históricas.
O segundo problema é conceitual. Análises acadêmicas, como a da FGV EESP, reconhecem explicitamente que "são raros os estudos sobre a efetividade" da ZFM, o que gera debates baseados em percepções, não evidências. A consequência é uma polarização midiática onde reportagens focam exclusivamente no "custo fiscal" sem contextualizar retorno em arrecadação, empregos e preservação.
A cobertura é desequilibrada por design. Quando o Valor Econômico publica críticas, a repercussão é nacional. Quando a Suframa rebate com dados técnicos mostrando que a ZFM mantém 97% da floresta preservada, a resposta mal ultrapassa as fronteiras amazônicas. As reações locais raramente alcançam a mídia nacional com a mesma proeminência dos ataques.
A Ameaça Real: Tentativas de Criar "Outras Zonas Francas"
Como se os ataques ideológicos não bastassem, a Zona Franca de Manaus enfrenta agora uma ameaça concreta: o Projeto de Lei do deputado José Nelto (Pode-GO) que propõe criar incentivos fiscais semelhantes no Distrito Federal e em 33 municípios de Goiás e Minas Gerais, por 25 anos.
A ironia é brutal. Enquanto criticam a ZFM como "anacronismo" e "privilégio injustificável", políticos do Centro-Oeste querem replicar o modelo para suas regiões – que já são infinitamente mais desenvolvidas, com acesso rodoviário, proximidade dos mercados consumidores e infraestrutura logística incomparavelmente superior à amazônica.
O vereador Rodrigo Sá, em Manaus, denunciou a farsa: "A Zona Franca tem o objetivo de promover a integração nacional porque deixamos de explorar riquezas e potencialidades naturais. Isso tem um custo socioeconômico. O nosso setor primário não avança exatamente por isso."
E está certo. A ZFM não é um capricho, é uma compensação constitucional. O Amazonas não pode explorar petróleo, minérios, madeira e terras como outros estados fazem. A contrapartida é manter a floresta preservada. Os incentivos fiscais são o preço que o Brasil paga para que 1,5 milhão de km² permaneçam intocados.
Criar "outras Zonas Francas" em regiões que já são privilegiadas logisticamente seria o golpe de misericórdia. Como alertou o ex-deputado Marcelo Ramos: "Se tiverem os mesmos incentivos fiscais que os nossos, toda a indústria sairá de Manaus e se instalará lá, porque os custos serão muito menores".
Felizmente, a bancada amazonense tem impedido o avanço dessas tentativas. O deputado Pauderney Avelino garantiu: "Como não há previsão orçamentária para essa renúncia fiscal, da Comissão de Finanças e Tributação não vai passar. Estou lá para impedir".
A Defesa que se Impõe
Há 40 anos escolhi viver na Amazônia. Nestes quatro décadas, vi de tudo: a floresta sendo queimada por grileiros, comunidades ribeirinhas sendo expulsas por madeireiros ilegais, garimpos contaminando rios com mercúrio, políticos prometendo desenvolvimento e entregando devastação.
Mas também vi a Zona Franca de Manaus transformar a capital amazonense na quinta maior economia do Brasil sem queimar uma árvore. Vi 500 mil empregos diretos e indiretos sendo gerados em uma região que, sem a indústria, estaria condenada ao abandono ou à destruição pela exploração predatória. Vi Manaus se tornar referência em preservação urbana, com mais de 90% do território preservado.
E agora, na COP30, vejo o prefeito David Almeida erguer a voz contra os ataques sistemáticos baseados em desinformação. E uno minha voz à dele.
A Zona Franca de Manaus não é problema. É solução. O problema é a miopia nacional que insiste em julgar a Amazônia com os olhos do asfalto paulista. O problema é o desconhecimento transformado em arma de ataque. O problema é a hipocrisia de exigir preservação sem oferecer alternativas econômicas viáveis.
Aos críticos de plantão, faço um convite: venham a Manaus. Conheçam o Polo Industrial. Conversem com os 132 mil trabalhadores diretos que sustentam suas famílias graças à ZFM. Visitem as comunidades no interior do Amazonas e vejam o que acontece onde não há indústria: exploração ilegal de madeira, garimpo clandestino, desmatamento para pecuária. Depois, se ainda tiverem coragem, digam que a Zona Franca é o problema.
A Amazônia não é o pulmão do mundo, mas é o coração da regulação climática brasileira. A Zona Franca de Manaus não é renúncia fiscal, mas investimento em preservação e desenvolvimento sustentável. Manaus não é anacronismo, mas modelo de cidade que concilia progresso econômico com responsabilidade ambiental.
E nós, que escolhemos viver aqui, não aceitaremos mais ser julgados por quem desconhece nossa realidade. A defesa da Zona Franca de Manaus é a defesa da própria Amazônia. É a defesa do único modelo que provou, ao longo de 58 anos, que é possível desenvolver sem destruir.
David Almeida estava certo ao reagir com indignação. E eu, jornalista há mais de 20 anos testemunhando esta realidade, registro aqui minha solidariedade irrestrita à sua posição. Chega de aceitar calados os ataques baseados em ignorância. Chegou a hora de confrontar a desinformação com dados. Chegou a hora de exigir respeito.
A Zona Franca de Manaus é constitucional, estratégica e civilizatória. Quem ataca a ZFM não está defendendo ajuste fiscal. Está defendendo, conscientemente ou não, o abandono da Amazônia à sua própria sorte – e sabemos bem o que isso significa: desmatamento, grilagem, destruição.
Não deixaremos que isso aconteça. A floresta em pé não é slogan. É resultado mensurável do único modelo de desenvolvimento que funciona na Amazônia. E quem vive aqui, quem escolheu esta terra como lar, quem conhece sua imensidão e suas particularidades, não se curvará ao desconhecimento arrogante de quem julga sem conhecer.
Esta é minha indignação. Esta é minha defesa. E junto-me ao prefeito David Almeida neste grito: basta de ignorância, basta de desinformação, basta de ataques injustificados à Zona Franca de Manaus.
A Amazônia não precisa de salvadores. Precisa de respeito, de conhecimento e de políticas públicas que reconheçam nossas especificidades. E a Zona Franca de Manaus é exatamente isso: o reconhecimento constitucional de que preservar a floresta tem custo – e que o Brasil inteiro se beneficia quando escolhemos a indústria em vez do desmatamento.
Quem vive aqui sabe. Quem preserva, produz e sustenta a Amazônia sabe. E não aceitaremos mais que falem por nós aqueles que jamais pisaram nesta terra.
Adão Gomes
Jornalista MTB-AM 000191, MBA em Inteligência Artificial para Empresas Contemporâneas.
Há mais de 40 anos na Amazônia, testemunhando e documentando a realidade
que os críticos de gabinete insistem em desconhecer.
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