
Por Adão Gomes
Há algo profundamente irônico em sediar a maior conferência climática do mundo em uma cidade onde 80% da população não tem acesso à coleta de esgoto. Belém, escolhida para receber a COP30 em novembro de 2025, tornou-se o epicentro de uma contradição que transcende a logística: como liderar pelo exemplo quando o exemplo desmorona sob o peso de suas próprias incoerências?
A revista britânica The Economist não poupou palavras. Descreveu a capital paraense como "caótica, esburacada, quente e pontilhada de esgoto a céu aberto". A frase ricocheteou pela mídia internacional e nacional, cristalizando uma percepção que os organizadores ainda tentam reverter. Mas a questão persiste: foi apenas crueldade editorial ou um diagnóstico preciso demais para ser ignorado?
Os números contam uma história simples e brutal. Belém possui 25 mil leitos disponíveis. A COP30 espera 50 mil visitantes. A matemática da hospitalidade não fecha — e o mercado respondeu com a voracidade esperada. Quartos de "qualidade inferior", nas palavras da imprensa internacional, foram anunciados por até US$ 10.000 por diária. Não é especulação: é extorsão legitimada pela escassez.
O presidente da Áustria cancelou sua participação. CEOs de multinacionais reconsideraram suas agendas. Delegações de países em desenvolvimento — justamente aqueles que mais precisam de voz nas negociações climáticas — desistiram diante dos custos proibitivos. A COP30, que deveria amplificar as vozes mais vulneráveis, está silenciando-as pela via econômica.
A solução emergencial? Transformar escolas, quartéis e motéis em albergues temporários. Mas essa improvisação desesperada apenas sublinha a pergunta central: por que escolher uma cidade que não estava pronta?
Enquanto Belém se prepara para receber o mundo, R$ 2,8 bilhões foram investidos em obras de infraestrutura. O número impressiona — até descobrirmos o que não sabemos sobre ele. Um relatório da Transparência Internacional-Brasil analisou 23 projetos relacionados à COP30 e encontrou o que chamou de "falhas graves na disponibilização de informações".
Os contratos permanecem sigilosos. O BNDES e Itaipu, responsáveis por 98% dos recursos, não divulgam a íntegra dos convênios nem os valores efetivamente repassados. Não há registros de consultas públicas. As licenças ambientais — ironia suprema para um evento climático — não estão disponíveis para escrutínio.
O Tribunal de Contas da União já investiga indícios de superfaturamento. A Minoria no Congresso acionou o TCU por "superfaturamento, monopólio e orçamento abusivo". Mas o silêncio oficial permanece ensurdecedor. Em que momento a falta de transparência fiscal deixou de ser um problema grave para se tornar procedimento padrão?
Rosângela da Silva ainda se lembra do dia em que descobriu que sua casa estava no caminho de uma obra da COP30. "Não teve reunião nenhuma do governo, só chegaram, nos notificaram, olharam as nossas casas e deram o preço que eles quiseram", relatou à Agência Pública.
O processo de remoção foi rápido e unilateral. Assistentes sociais teriam dito que "de um jeito ou de outro, a obra ia continuar". Após o pagamento — entre R$ 5 mil e R$ 40 mil por residência — as famílias receberam cinco dias para desocupar. Cinco dias para desfazer uma vida.
As obras responsáveis pelas remoções têm nomes técnicos: Macrodrenagem da Bacia do Tucunduba, Avenida Liberdade, Estrada Nova. Cortam bairros majoritariamente negros como Guamá e Terra Firme. O Governo do Pará não divulga quantas famílias foram afetadas, tornando impossível dimensionar o impacto real. A invisibilidade, ao que parece, também é uma estratégia.
Com indenizações insuficientes para garantir moradia digna, essas famílias migram para outras áreas de vulnerabilidade — algumas em zonas de risco de inundação. A COP30, que deveria discutir justiça climática, está aprofundando a injustiça social. Há nome para isso: racismo ambiental. Mas ninguém quer pronunciá-lo em voz alta.
Em janeiro de 2025, a revista Science — uma das publicações científicas mais respeitadas do mundo — publicou um editorial devastador. A frase central, assinada por cientistas renomados incluindo Philip Fearnside, foi cirúrgica: "Como anfitrião, o Brasil não está liderando pelo exemplo".
O editorial descreve uma divisão sistêmica no governo brasileiro. "Com exceção do Ministério de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, virtualmente todos os setores do governo promovem atividades que aumentam as emissões". A acusação não vem de ativistas — vem da academia.
O Ministério dos Transportes avança com a recuperação da BR-319, que, segundo o editorial, vai "abrir grandes áreas da Floresta Amazônica à entrada de desmatadores". O Ministério da Agricultura subsidia a conversão de pastagens em plantações de soja, incentivando pecuaristas a vender terras valorizadas e comprar "áreas maiores e mais baratas em regiões remotas da Amazônia" — um ciclo perverso de desmatamento.
E então há o petróleo.
Às vésperas da COP30, o Ibama autorizou a Petrobras a perfurar na Foz do Amazonas. A decisão provocou uma enxurrada de críticas que expôs a fratura central na política climática brasileira.
O Greenpeace foi direto: "A decisão mancha de óleo discurso climático nacional". Mariana Andrade, coordenadora da ONG, elaborou: "Às vésperas da COP 30, o Brasil se veste de verde no palco internacional, mas se mancha de óleo na própria casa".
A AIDA (Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente) foi ainda mais incisiva: "Brasil contradiz sua liderança na COP30 ao entregar a Amazônia à indústria do petróleo".
Mas a contradição atingiu seu ápice quando André Corrêa do Lago, presidente da COP30, declarou publicamente que "não vê contradição entre petróleo na Foz do Amazonas e agenda ambiental de Lula". A frase foi repetida pela mídia como evidência irrefutável da dissonância cognitiva oficial.
Como negociar transição energética quando o país anfitrião está expandindo sua fronteira petrolífera? Como falar em redução de emissões enquanto leiloa blocos na bacia amazônica? A credibilidade não se constrói com discursos — ela se destrói com ações contraditórias.
A contradição macro se reproduz no micro. A Avenida Liberdade, um dos principais projetos de mobilidade para a COP30, está cortando uma Área de Proteção Ambiental Metropolitana de Belém. Enquanto isso, árvores artificiais são instaladas em outras partes da cidade — uma ironia tão óbvia que dispensa análise.
Comunidades quilombolas e ribeirinhas denunciam impactos ambientais e atraso nas obras de compensação. A obra é alvo de ação judicial. Mas o desmatamento continua, fornecendo imagens poderosas que já circulam nas redes sociais: tratores derrubando floresta nativa para receber uma conferência sobre salvar florestas.
A pesquisa Quaest quantificou o que já se sentia: 37% das menções nas redes sociais sobre a COP30 são críticas. Em períodos específicos, as menções negativas superaram as positivas. Outra pesquisa da Revista Oeste indicou que quase metade dos brasileiros rejeita Belém como sede.
Não é apenas percepção — é realidade operacional. A Conferência de Bonn, principal evento preparatório, terminou "sem avanços substanciais", segundo a cobertura do WWF e do ClimaInfo. Os impasses em adaptação climática, financiamento e transição energética estabeleceram uma expectativa de fracasso que contamina Belém antes mesmo do evento começar.
A principal missão da COP30 é definir a Nova Meta Coletiva Quantificada de financiamento climático: mobilizar US$ 1,3 trilhão. Mas a apresentação do "Mapa do Caminho de Baku a Belém" foi recebida com ceticismo. A implementação, admitem os próprios organizadores, depende de "um bocado de vontade política" — exatamente o que não apareceu em Bonn.
Apenas 57 chefes de Estado confirmaram presença na Cúpula de Líderes. Os Estados Unidos, sob governo Trump, estão ausentes. Em redes sociais, o evento já foi ironizado como "Flop-30". A baixa adesão de líderes mundiais reduz o peso político e limita a capacidade de produzir compromissos ambiciosos.
Belém possui 50 pontos críticos para alagamentos. Dez por cento da população vive em áreas de risco de inundação. Cinquenta e sete por cento vivem em áreas urbanas precarizadas. A cidade, que deveria ser símbolo de sustentabilidade amazônica, é refém de um crescimento urbano desordenado que a COP30 não apenas ignorou — agravou.
Durante os primeiros dias da Cúpula de Líderes, os problemas operacionais foram documentados com crueza: falta de água em banheiros nas instalações oficiais, apagões durante sessões, refeições de R$ 60 reduzidas para R$ 45 após reclamações públicas. Essas falhas, amplamente divulgadas nas redes sociais, reforçam a narrativa de despreparo que afasta os participantes que ainda consideravam comparecer.
E há uma questão que ninguém quer discutir abertamente: a "limpeza social". Reportagens e postagens em redes sociais denunciaram a remoção de pessoas em situação de rua do centro de Belém sem medidas de acolhimento — uma operação para "embelezar" a cidade que mais parece esconder a pobreza dos olhos internacionais.
A COP30 não é apenas uma conferência — é uma promessa. Uma promessa de que a maior floresta tropical do mundo merece estar no centro das decisões climáticas. Uma promessa de que o Brasil pode liderar não apenas com palavras, mas com ações.
Mas promessas exigem coerência. Exigem transparência. Exigem que as famílias removidas sejam ouvidas tanto quanto os delegados internacionais. Exigem que o petróleo na Foz do Amazonas seja reconhecido como a contradição que é, não justificado como política de Estado. Exigem que uma cidade escolhida para sediar a discussão sobre justiça climática não aprofunde sua própria injustiça social.
O que está em jogo em Belém não é apenas o futuro do clima — é a credibilidade da própria ideia de que eventos como a COP30 ainda importam. Que acordos internacionais ainda significam algo. Que palavras ainda têm peso quando confrontadas com a realidade.
Os dados estão aí. As contradições, expostas. As perguntas, formuladas. Resta saber se haverá respostas — ou se Belém será lembrada como o momento em que a distância entre o discurso climático e a ação se tornou grande demais para ser ignorada.
Reportagem baseada em 88 fontes documentadas | Novembro de 2025
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