
Adão Gomes
Enquanto microplásticos contaminam 100% das amostras de água do segundo rio mais poluído do mundo, Manaus responde com ação e viabiliza mudança replicável
MANAUS – Às 11h desta sexta-feira (7), o prefeito David Almeida acompanha pessoalmente a instalação de uma estrutura de 36 metros nas águas turvas do igarapé do Educandos, nas proximidades da feira da Panair, zona Sul de Manaus. Não é uma obra monumental de concreto ou aço. É algo mais simples, mais inteligente – e talvez por isso mesmo, mais revolucionário: a maior ecobarreira já instalada na capital amazonense.
Três módulos de 12 metros cada. Flutuantes discretos que carregam uma missão urgente: interceptar o rio de plástico que, invisível aos olhos distraídos, flui diariamente pelos igarapés em direção ao Rio Negro, ao Amazonas, e finalmente ao oceano Atlântico.
A gestão municipal levará essa iniciativa para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-30), que acontece em Belém entre 10 e 21 de novembro, demonstrando ao mundo que soluções eficazes nascem da compreensão do território, não apenas de grandes investimentos.
Dirceu Paz tem 40 anos de bairro Educandos na pele, na voz, na memória. Lembra quando era possível pescar ali. Quando crianças se banhavam nas águas que hoje carregam, além de histórias, toneladas de resíduos sólidos. "Esse lixo vem também de outros igarapés. Tudo desagua aqui na bacia do Educandos", explica o líder comunitário, revelando o que poucos sabem: o Educandos é um funil involuntário – concentra o descarte dos igarapés Quarenta e Jefferson Pérez antes de entregar tudo ao Rio Negro.
É ali, nesse ponto crítico, que a 12ª ecobarreira da cidade cumprirá seu papel silencioso de guardião.
O cenário é dolorosamente familiar em comunidades ribeirinhas da Amazônia. Segundo estudo publicado na Revista Ambio, o rio Amazonas é o segundo curso d'água mais poluído por plástico do mundo, sendo responsável por aproximadamente 10% de todo o plástico que chega aos oceanos.
Pesquisadores da Unifesp e da USP encontraram microplásticos no sedimento dos rios Negro, Solimões e Amazonas a até 110 quilômetros de Manaus. As maiores concentrações – de 5,7 mil a 8,2 mil partículas por quilograma de sedimento – foram medidas no rio Negro, nas proximidades da capital. A contaminação silenciosa já chegou ao coração da maior floresta tropical do planeta.
As 12 ecobarreiras instaladas em Manaus desde 2023 representam algo mais profundo que engenharia ambiental: representam o reconhecimento de que nem sempre as grandes soluções precisam ser grandiosas. Elas retêm, mensalmente, cerca de 300 toneladas de resíduos sólidos que, sem a intervenção, chegariam ao Rio Negro. Em paralelo, as ecobarreiras instaladas em pontos estratégicos já impediram que cerca de 2,5 mil toneladas de lixo chegassem ao leito do rio Negro, comprovando o impacto direto e preventivo dessa tecnologia ambiental.
Para dimensionar: são 3,6 mil toneladas interceptadas por ano. O equivalente ao peso de aproximadamente 3 milhões de garrafas PET impedidas de poluir o berço da maior biodiversidade aquática do planeta.
O impacto já é mensurável. Antes da implantação do sistema, as operações de transbordo no Rio Negro resultavam na retirada de 600 a 700 toneladas de lixo por mês. Com as ecobarreiras em operação, esse volume caiu para 300 a 400 toneladas – uma redução de até 50%.
"Lixo esse que iria descer os igarapés, chegar até o grande rio Negro e, posteriormente, chegar até o oceano", observa o gestor municipal durante inspeção na ecobarreira do igarapé do Mindu. "Com isso, a gente contribui para o meio ambiente, preservando os nossos mananciais."
Cerca de 66% dos animais contaminados por plásticos na Amazônia são consumidos regularmente por comunidades locais, revela pesquisa coordenada pela Fiocruz em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Não é apenas uma estatística – é um ciclo de contaminação que fecha em corpos humanos, especialmente os mais vulneráveis: crianças, ribeirinhos, indígenas.
Pássaros na Amazônia usam resíduos descartados por humanos para construir ninhos. Peixes comem plástico e papel. Plantas aquáticas concentram poluição em pontos fixos dos rios. A natureza, desesperada, absorve o que não deveria existir ali.
"Antigamente, os resíduos eram majoritariamente orgânicos ou biodegradáveis – cascas de frutas, espinhas de peixe", relatam pesquisadores do Instituto Mamirauá. "Mas, hoje, vemos garrafas PET e pacotes de macarrão instantâneo boiando nos rios, com frequência".
Em setembro de 2025, a Prefeitura de Manaus recebeu o "Selo Caixa Gestão Sustentável", certificação nacional que avalia municípios em 22 indicadores públicos ligados à governança, sustentabilidade e responsabilidade social (ESG). O reconhecimento atesta que a capital está no caminho correto.
Na próxima semana, entre os dias 10 e 21 de novembro, os olhos do mundo se voltarão para Belém, onde acontece a COP-30. Ali, entre delegações internacionais e debates sobre tecnologias complexas, a gestão manauara apresentará as ecobarreiras – prova viva de que soluções eficazes podem nascer da simplicidade, do baixo custo e do olhar atento sobre o território.
"Todos esses resultados serão apresentados na COP 30, demonstrando o investimento do poder público municipal na gestão de resíduos sólidos, um desafio enorme para as grandes cidades, com preocupação na preservação do meio ambiente", informa a Semulsp.
Enquanto 70% das cidades da Amazônia brasileira não possuem tratamento de água adequado e apenas 2,6% dos 313 municípios amazônicos apresentam condições adequadas de saneamento básico, Manaus encontrou na tecnologia das ecobarreiras uma resposta pragmática e replicável.
São 936 mil toneladas de lixo produzidas anualmente. São 78 mil toneladas mensais que exigem gestão constante em uma cidade cortada por aproximadamente 150 igarapés – a maioria severamente poluída após décadas de crescimento urbano sem planejamento.
A liderança municipal tem investido em infraestrutura e sustentabilidade para preparar a capital amazonense diante das mudanças climáticas. As ecobarreiras são apenas uma das ações de um plano mais amplo.
"Manaus tem enfrentado desafios climáticos intensos, como as fortes chuvas recentes, mas estamos trabalhando incansavelmente para reduzir os impactos desses eventos. Nossas ações, como a desobstrução de bueiros, a recuperação dos igarapés e a expansão da drenagem urbana, são fundamentais para proteger a população e a cidade. Nosso compromisso é seguir investindo em uma Manaus mais sustentável e resiliente", afirma a gestão municipal.
Em outubro de 2025, foi lançado o projeto "Parque 60+ Verde", no Parque Municipal do Idoso, realizando o plantio de 356 mudas de árvores em alusão ao aniversário de Manaus, representando o maior plantio já realizado em um parque urbano da cidade. A prefeitura também desenvolveu o Plano de Ação Climática de Manaus, instrumento fundamental para enfrentar os desafios ambientais com reconhecimento nacional e internacional.
A prefeitura investiu na renovação da frota de ônibus, incorporando 440 novos veículos equipados com motores Euro 6, que reduzem em até 77% a emissão de poluentes, promovendo mobilidade sustentável.
"Quem é responsável por isso não é a natureza, a natureza está cobrando", enfatiza Sabá Reis, secretário municipal de Limpeza Urbana. "São as pessoas que ainda não se conscientizaram que podem ajudar se deixarem de fazer isso".
As ecobarreiras não eliminam o problema em sua origem – mas impedem que objetos descartados irregularmente, como carcaças de geladeiras, obstruam redes de esgoto e causem alagamentos nas áreas mais vulneráveis da cidade. São uma resposta, não a solução final.
A solução final habita outro território: a consciência coletiva. A decisão de cada pessoa que escolhe não descartar uma garrafa PET no igarapé. A empresa que repensa suas embalagens. A criança que aprende, desde cedo, que o rio não é lixeira – é vida.
"Se vocês ajudarem, poderão não estar pagando com a vida o transtorno que é causado na cidade de Manaus, principalmente nas áreas alagadiças", apela Sabá Reis à população.
No caso de Manaus, cuja população é composta por mais de 2 milhões de habitantes, apenas 32% das residências utilizam esgoto sanitário público. A falta de condições adequadas de saneamento representa uma importante fonte de entrada de plásticos e microplásticos nos rios, que compõem o maior sistema fluvial do mundo.
O trabalho de limpeza foi ampliado para comunidades rurais e aldeias indígenas da região do rio Cuieiras e de outras áreas da zona rural de Manaus, onde os resíduos não podem ser queimados nem enterrados por questões ambientais e sanitárias. A gestão reconhece que a proteção dos mananciais exige ação integrada.
"A determinação do prefeito David Almeida é muito clara: cuidar dos nossos rios e igarapés todos os dias, com planejamento, presença e resultado. Essa operação mostra o compromisso da Prefeitura de Manaus com o meio ambiente e com a saúde", reforça o secretário Sabá Reis.
Pesquisas sobre gestão de barreiras flutuantes em outras regiões do Brasil demonstram que a manutenção preventiva planejada reduz custos operacionais em 7,7% em comparação com estratégias reativas, garantindo maior eficiência a longo prazo. Isso reforça a sustentabilidade econômica da solução adotada por Manaus.
A experiência de Manaus dialoga diretamente com iniciativas globais de combate à poluição plástica. A Expedição Silent Amazon, realizada em 2019, percorreu 1,5 mil quilômetros de rios coletando amostras para identificar contaminantes silenciosos como microplásticos, agrotóxicos e produtos farmacêuticos. O alerta científico já estava dado – Manaus respondeu com ação concreta.
Quando a COP-30 terminar, quando as delegações partirem, quando os holofotes se apagarem, as ecobarreiras permanecerão. Flutuando discretamente, trabalhando em silêncio, interceptando o lixo que insiste em chegar onde não deveria.
E talvez esse seja o maior legado dessa gestão: não o que se discute em grandes conferências, mas o que se faz, diariamente, nos igarapés de uma cidade que decidiu agir.
A maior ecobarreira do Educandos não salvará o planeta sozinha. Mas salva o rio. E ao salvar o rio, salva os peixes que o habitam, os pássaros que dele bebem, as famílias que dele dependem.
Salva, enfim, um pedaço de Amazônia – e nos lembra que toda grande transformação começa com uma barreira erguida no lugar certo, na hora certa, por quem decidiu não mais aceitar o inaceitável.
Manaus se posiciona não apenas como protagonista da preservação amazônica, mas como laboratório vivo de soluções que o mundo precisa aprender.
CONTEXTO:
Mais informações: Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) : [email protected]
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