
SANCHO GIL LANÇA LIVRO EM MANAUS E PROMETE SESSÃO DE AUTÓGRAFOS COM CHEIRO DE INCENSO E ORÉGANO
Adão Gomes
Ou: Como uma mulher barbuda conquistou a literatura amazonense com crônicas que ninguém pediu (mas todo mundo precisa)
Por um correspondente que também não sabe se existe
Manaus se prepara para receber o evento literário mais aguardado desde que alguém descobriu que dá pra vender livro no sistema "pague quanto quiser" – ou como preferem os íntimos: "me dê qualquer coisa aí, pelo amor de Deus". Nos dias 29 de outubro e 1º de novembro, a escritora, menestrel, comendadora autoproclamada e degustadora profissional de chibé, Sancho Gil (ou seria Sancha? Sanchão? Sanchete?), lança "Cantando na Biblioteca", um livro fininho de 195 páginas que promete ser tão nutritivo quanto mandioquinha com veneno de cicuta.
Sim, você leu certo: Sancho Gil é uma mulher. Ou seria um homem? Talvez um coletivo de almas penadas? Um bot mal programado? Uma entidade andrógina que fuma com a mão direita e joga as cinzas pelo ombro esquerdo como Sissica e Didi Redman? Ninguém sabe ao certo, e isso é parte do charme. O que sabemos é que essa criatura literária veio de Santiago de Compostela pelo caminho inverso (ou seja, perdida) e caiu de paraquedas em Ratanabá, a cidade perdida do Amazonas, onde foi batizada por Frei Fulgêncio e pelo apóstolo Hiel Levy em cerimônia regada a bacaba no caneco.
O LIVRO QUE NINGUÉM PEDIU MAS TODO MUNDO VAI QUERER (OU NÃO)
"Cantando na Biblioteca" é uma compilação de crônicas semanais que, segundo a descrição oficial, contém "abobrinhas e mandioquinhas ácidas, às vezes com veneno de cicuta e timbó". Perfeito para quem está cansado de literatura edificante e precisa de um chá de gordura hidrogenada literária. Financiado com recursos da inexistente Lei Adnet (porque todo livro de respeito tem que ter uma lei fictícia por trás) e uma franquia do Show da Fé (sim, aquele mesmo), o livro promete desafiar a interpretação de texto numa era onde 280 caracteres já são considerados excesso de informação.
As crônicas foram originalmente publicadas no blog do Hiel Levy, além de aparecerem em sites de credibilidade duvidosa como nafesta.com.br e jeroaqui.com.br – lugares onde a literatura brasileira vai para se divertir antes de ser esquecida pela eternidade. São textos sobre o cotidiano, escritos do alto de um minarete por alguém que "acorda com medo, mas não chora e nem reclama abrigo", conforme descreve o próprio poeta em "Poema" (título criativo onde os há).
O livro vem impresso na famosa "seda goma arábica natural aromatizada" da Editora Lucel-SP (chique!), com ilustrações de Antonio Iaccovazo que capturam perfeitamente o espírito de quem não sabe se está lendo uma crônica ou um surto coletivo. No "lado B" (porque livro agora tem lado B, como vinil de boteco), o leitor encontra artigos colaborativos do jornalista Jamil Chad, da Folha de São Paulo, escrevendo uma carta intimista ao Chico Buarque (que provavelmente nem sabe que está no livro), e de Ribamar Felix, ex-diretor da UNE, resgatando a história do curso de Ciências Sociais da UFAM.
O prefácio, assinado coletivamente por uma quantidade absurda de pessoas (porque um prefácio com menos de 25 autores não tem graça), inclui nomes como Eledilson Colares, João Carlos Portela, Demóstenes Carminé, e o enigmático "Não sei, só sei do Brás" – que, convenhamos, resume bem o espírito da obra.
OS LANÇAMENTOS: ONDE O CIRCO VAI ARMAR A TENDA
Dia 29 de outubro (quarta-feira), às 18h, no Largo de São Sebastião (centro de Manaus, para quem se perdeu), o evento promete sessão de autógrafos, show acústico e a presença ilustre de Adal Venâncio (descrito oficialmente como "acendedor de incenso, marofa, lirismo musical e degustador de orégano"), Jaime Pereira, Célio Cruz e outros convidados que ainda estão sendo convencidos a aparecer.
O corpo técnico do evento é uma poesia à parte. Temos "Curadoria e mise-en-scène" de Márcia Vinagre e Ana Maria Costa Azevedo (porque todo lançamento de livro precisa de uma mise-en-scène), "Micose e articulações" de Miguel Pacheco (cargo que deveria existir em todas as empresas), "Louvor e orações trepado na goiabeira da Rádio Rio-mar" de Sancho de La Mierda (nome artístico que dispensa comentários), e – pasmem – "Memórias póstumas e de próstata" de ninguém menos que Olavo do Caralho (sim, AQUELE Olavo, provando que a morte não é obstáculo para participar de eventos literários em Manaus).
No dia 1º de novembro, das 10h às 13h, na Livraria Nacional da Rua 24 de Maio (centro), acontece a segunda sessão de autógrafos, roda de conversas (para quem ainda não entendeu do que se trata o livro) e show acústico com Adal. Menos gente no corpo técnico, mas a mesma energia caótica.
O SISTEMA "PAGUE QUANTO QUISER": OU CAPITALISMO ENVERGONHADO
Em tempos de crise econômica, hiperinflação de fofoca e desvalorização do bom senso, Sancho Gil (ou seria Sancha?) decidiu adotar o revolucionário sistema PWYW (Pay What You Want), que em bom português significa: "Me dá o que você puder aí, mas não saia de mãos abanando". É a democratização da literatura ou a constatação de que ninguém pagaria o preço de capa mesmo? Deixamos a resposta para os economistas de botequim.
QUEM É ESSA TAL DE SANCHO GIL AFINAL?
Boa pergunta. Se você chegou até aqui esperando uma resposta clara, prepare-se para a decepção. Sancho Gil é muitas coisas: comendadora autoproclamada, menestrel de Ratanabá, bebedora de bacaba no caneco, fumante compulsiva de cigarros com cinzas jogadas ritualmente pelo ombro esquerdo, e autora de crônicas que misturam ironia, sarcasmo e uma pitada generosa de "não sei o que estou fazendo aqui".
Alguns dizem que é uma mulher barbuda que veio de terras distantes. Outros juram que é um coletivo de escritores bêbados disfarçados de uma única persona. Há quem acredite que seja o espírito de Machado de Assis reencarnado em corpo amazonense, vindo para vingar-se da literatura brasileira contemporânea. A verdade? Provavelmente está em algum lugar entre o misticismo e o deboche, temperada com jaraqui e servida em cuia.
O que sabemos com certeza é que Sancho Gil escreve como quem não tem nada a perder – e isso, convenhamos, é libertador numa época onde todo mundo tem medo de ofender até a própria sombra. Suas crônicas são um tapa na cara da superficialidade digital, um grito desesperado por interpretação de texto numa sociedade que mal consegue ler uma placa de trânsito.
POLÍTICOS E SEGUIDORES: O PÚBLICO-ALVO PREFERIDO
Se você é político, influencer digital, militante de internet ou qualquer tipo de pessoa que leva a vida muito a sério, este livro não é para você. Ou melhor: é ESPECIALMENTE para você. Sancho Gil tem o dom raro de irritar todo mundo ao mesmo tempo, sem tomar partido de ninguém. É como aquele tio chato do churrasco que fala verdades inconvenientes depois da terceira cerveja, só que com talento literário e sem precisar ser expulso da festa.
As crônicas abordam "acontecimentos contemporâneos atemporais" – ou seja, falam sobre ontem, hoje e amanhã ao mesmo tempo, numa confusão temporal que faria Christopher Nolan ter inveja. Prevalecem a ironia, o sarcasmo, a crítica e observações que são "lugares comuns no bom senso" (oxímoro proposital, certamente).
Políticos sevenxantam? Com certeza. Seguidores também? Sem dúvida. Mas convenhamos: se você não aguenta uma crônica ácida, talvez devesse repensar suas escolhas de vida. Ou pelo menos evitar eventos literários em Manaus.
O VEREDICTO (OU: POR QUE VOCÊ DEVERIA IR)
Vamos ser honestos: você provavelmente não precisa deste livro. Ninguém PRECISA de um livro chamado "Cantando na Biblioteca" escrito por uma entidade chamada Sancho Gil que pode ou não ser uma mulher, pode ou não existir, e certamente não se leva a sério. Mas a vida não é feita apenas de necessidades. Às vezes, precisamos de coisas inúteis, divertidas, nonsense – como este livro.
Se você gosta de literatura que não se encaixa em prateleiras, de crônicas que parecem escritas durante um surto de lucidez alcóolica, de textos que fazem você rir e questionar sua sanidade ao mesmo tempo, então "Cantando na Biblioteca" é para você. Se você é o tipo de pessoa que acha que literatura tem que ser séria, profunda e edificante, fique em casa e releia seus clássicos empoeirados.
Para os corajosos, aventureiros e entediados de plantão: nos vemos dia 29 de outubro na Casa das Artes ou dia 1º de novembro na Livraria Nacional. Leve dinheiro (ou não, sistema PWYW lembra?), paciência para ouvir show acústico de gente que você não conhece, e prepare-se para conhecer a obra de alguém que decidiu fazer da literatura um ato de rebeldia contra o bom gosto e as normas sociais.
Ah, e se você encontrar Sancho Gil pessoalmente, avise a gente. Ainda estamos tentando descobrir quem diabos é essa criatura.
SERVIÇO:
Lançamento 1:
Casa das Artes - Largo de São Sebastião, centro
29/10 (quarta-feira) - 18h
Sessão de autógrafos + Show acústico
Lançamento 2:
Livraria Nacional - Rua 24 de Maio, 415, centro
01/11 - 10h às 13h
Sessão de autógrafos + Roda de conversas + Acústico
Contato: (11) 92159-4350
E-mail: [email protected]
Instagram: @sanchogiloficial
Valor: Pague quanto quiser (tradução: qualquer coisa serve, mas não seja mão-de-vaca)
As crônicas de Sancho Gil são publicadas regularmente no blog do Hiel Levy, nafesta.com.br e jeroaqui.com.br – para quem gosta de literatura com gosto de perigo.
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