
Por Adão Gomes - Outubro de 2025
Há um ditado conhecido no universo eleitoral: "Uma semana na política é uma eternidade". No Amazonas de 2026, essa máxima ganha contornos quase cômicos. A 12 meses do pleito, o cenário político estadual oscila com a previsibilidade de um algoritmo em colapso — números sobem e despencam, alianças se anunciam e se desmancham, candidatos juram lealdade enquanto medem o próprio termômetro eleitoral. E no centro dessa gangorra de intenções de voto, pesquisas e apostas políticas, um nome emerge como a verdadeira incógnita da eleição: David Almeida.
Se você acredita em tudo o que está vendo nas pesquisas eleitorais divulgadas ao longo de 2025, prepare-se para uma decepção. A volatilidade não é apenas uma característica da corrida eleitoral no Amazonas — ela é a corrida. E quem pensa que já sabe o desfecho para 2026 provavelmente não está prestando atenção suficiente.
Antes de mergulharmos nos números (e nas ironias que eles escondem), é preciso contextualizar a fonte. A Realtime Big Data (RTBD) é um instituto de pesquisa nacionalmente reconhecido, frequentemente contratado por veículos como CNN Brasil, Estadão e Record News. Suas pesquisas utilizam metodologia padrão — entrevistas face a face ou telefônicas, com amostras que variam entre 1.000 e 1.500 entrevistados e margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos.
No Amazonas, o histórico da RTBD é misto: em 2022, o instituto acertou ao projetar a vitória de Wilson Lima sobre Eduardo Braga no segundo turno para o governo estadual, com previsão de 58% dos votos válidos para Lima contra 42% de Braga — resultado que se confirmou nas urnas. Contudo, houve discrepâncias no primeiro turno da mesma eleição, evidenciando que, como qualquer instituto, a RTBD captura tendências, não certezas.
A pesquisa de outubro de 2025, divulgada pela CNN, oferece um retrato fascinante — não pela clareza, mas pela confusão organizada que representa. Para o governo estadual, Omar Aziz (PSD) lidera em todos os cenários testados, mas sua vantagem "sólida" desaparece conforme novos nomes entram na disputa: de 43% em um cenário simplificado, Aziz despenca para 29% quando enfrenta simultaneamente Capitão Alberto Neto (PL) e David Almeida (Avante).
Para o Senado, o cenário é ainda mais caótico. Eduardo Braga (MDB) e Capitão Alberto Neto (PL) aparecem empatados tecnicamente em 21% cada, com Wilson Lima (União Brasil) surgindo como a verdadeira variável de instabilidade, registrando 18% das intenções de voto. Dois assentos no Senado, três candidatos competitivos, e um eleitorado que ainda não decidiu em quem vai votar. Volatilidade pura.
O problema? Nenhum desses números reflete necessariamente o que acontecerá em outubro de 2026. Eles são, no máximo, fotografias tremidas de um momento político específico. E é exatamente por isso que David Almeida se torna o personagem mais intrigante dessa narrativa.
David Almeida já declarou publicamente, em múltiplas ocasiões ao longo de 2025, que não será candidato ao governo do Amazonas em 2026. Em abril, ao comentar sua inclusão em pesquisas eleitorais, o prefeito foi categórico: "Eu vou fazer um apelo para que os donos de institutos de pesquisa não coloquem meu nome nas pesquisas. Eu não sou candidato". Em julho, reafirmou seu compromisso com o senador Omar Aziz, anunciando apoio formal à candidatura do aliado ao governo estadual.
Mas aqui está a ironia deliciosa: os formadores de opinião no Amazonas não acreditam nele. Ou melhor, acreditam que ele pode mudar de ideia. E com razão.
David Almeida foi reeleito prefeito de Manaus em outubro de 2024 com uma vitória expressiva no segundo turno, derrotando Capitão Alberto Neto (PL) por 54,59% contra 45,41% dos votos válidos. Durante a campanha, sua estratégia de marketing digital foi especialmente destacada, com a contratação do marqueteiro Marcelo Vitorino para ampliar o engajamento online e contrapor adversários ativos nas redes sociais. A vitória consolidou David como uma das principais lideranças políticas do Amazonas — e criou o maior enigma eleitoral de 2026.
Porque aqui está o detalhe que poucos querem falar em voz alta: David Almeida domina Manaus, o maior colégio eleitoral do Amazonas. Quando testado na pesquisa de outubro para o governo estadual, Almeida registra entre 15% e 21% das intenções de voto, dependendo do cenário simulado, tornando-se o principal fator de fragmentação e queda de Omar Aziz. Sua presença na disputa transforma uma liderança "confortável" de Aziz (43%) em uma corrida tripartida tecnicamente empatada dentro da margem de erro.
Em outras palavras: se David Almeida realmente não quer ser candidato, ele deveria parar de ser tão competitivo.
Há dois motivos pelos quais os formadores de opinião no Amazonas veem David Almeida como uma das maiores surpresas potenciais de 2026. O primeiro é sua presença física constante. Ao longo de seu segundo mandato, o prefeito tem sido visto diariamente em inaugurações, visitas a bairros, entregas de obras e eventos comunitários. Sua estratégia de governança é também uma estratégia de campanha permanente — algo que políticos experientes reconhecem como "manter o nome quente".
O segundo motivo é ainda mais poderoso: sua visibilidade digital em progressão geométrica. Em 2023, uma pesquisa do instituto Quaest apontou David Almeida como o quinto prefeito de capital mais popular nas redes sociais do Brasil, com base no Índice de Popularidade Digital (IDP), que considera alcance em plataformas como Facebook, Instagram, Twitter, YouTube e TikTok.
Essa presença digital é um ativo político cada vez mais valioso. No Brasil de 2025, onde a maioria dos eleitores passa horas diárias consumindo conteúdo online, a capacidade de um político de gerar engajamento nas redes sociais pode ser mais determinante do que comícios e jingles no rádio. David Almeida compreendeu isso antes de muitos de seus adversários — e está colhendo os frutos.
Mas há um problema: em agosto de 2025, uma pesquisa do Instituto Census apontou que a gestão de David Almeida atingiu 57% de desaprovação entre os eleitores de Manaus, com apenas 33% aprovando sua administração no segundo mandato. Episódios controversos, como uma viagem ao Caribe durante enchentes na cidade, a morte de uma biomédica em um acidente causado por buraco na via, e críticas à remoção de ambulantes do centro, têm corroído sua imagem.
Então, como explicar que um prefeito com 57% de rejeição local continue sendo visto como competitivo para o governo estadual? Simples: porque a política amazonense de 2026 não será decidida pela aprovação de gestões, mas pela capacidade de mobilizar votos em Manaus — e David Almeida, mesmo impopular, tem a máquina, o dinheiro, a visibilidade e a estrutura para fazer exatamente isso.
Aqui está onde a história fica verdadeiramente interessante. Em abril de 2025, David Almeida participou do lançamento do movimento "Amazonas Forte de Novo", ao lado dos senadores Omar Aziz e Eduardo Braga, consolidando publicamente a aliança entre os três para as eleições de 2026. Em julho, anunciou que já havia indicado um nome para compor a chapa de Omar Aziz como possível vice-governador, reforçando o compromisso com o grupo político.
Mas nos bastidores, outra narrativa circula. Líderes comunitários em Manaus, vereadores da base aliada e até dirigentes do Avante têm pressionado David Almeida a reconsiderar. O argumento é simples: se ele tem os números, por que desperdiçá-los? Pesquisas de abril e maio de 2025 mostraram David Almeida empatado tecnicamente com Omar Aziz para o governo estadual, ambos com 28% das intenções de voto em Manaus.
A tentação é evidente. Um político que controla o maior colégio eleitoral do estado, que tem visibilidade nacional crescente, que domina as ferramentas digitais e que aparece competitivo nas pesquisas dificilmente ignora esses sinais. E embora David Almeida tenha declarado lealdade a Omar Aziz, a história política brasileira está repleta de "compromissos firmes" que derreteram diante da oportunidade certa.
Analistas políticos locais especulam sobre cenários alternativos: e se Wilson Lima renunciar ao governo em abril de 2026 para disputar o Senado, deixando o vice-governador Tadeu de Souza (Avante), aliado próximo de David Almeida, no comando do executivo estadual? Esse movimento colocaria David em uma posição estratégica para reconsiderar sua decisão.
A ironia, claro, é que quanto mais David Almeida nega, mais forte fica a narrativa de que ele deveria ser candidato. E quanto mais ele aparece nas pesquisas como competitivo, mais difícil fica explicar por que ele está abrindo mão dessa oportunidade.
Voltemos aos números da Realtime Big Data, porque eles contam uma história fascinante sobre a fragilidade das lideranças estabelecidas no Amazonas.
Omar Aziz, o favorito nominal, perde 14 pontos percentuais entre o cenário mais favorável (43%) e o cenário mais competitivo (29%). Essa queda não é estatisticamente insignificante — é um colapso estrutural. O que os números sugerem é que o eleitorado amazonense não quer Omar Aziz tanto quanto as pesquisas iniciais sugeriam. Ele é a opção "padrão" quando não há alternativas viáveis, mas assim que nomes competitivos entram na disputa, seu apoio evapora.
O principal responsável por essa fragmentação? David Almeida. Quando ele entra no cenário 4, registrando 15%, Aziz cai para 29%, criando uma disputa tripartida tecnicamente empatada com Capitão Alberto Neto (PL).
Para o Senado, a situação é igualmente caótica. Eduardo Braga e Capitão Alberto Neto estão empatados em 21% cada, com Wilson Lima a apenas 3 pontos percentuais de distância (18%). Considerando a margem de erro de 3 pontos, qualquer um dos três pode ocupar as duas cadeiras em disputa.
O que tudo isso significa? Que o Amazonas de 2026 não tem favoritos, tem possibilidades. E David Almeida, o homem que diz "não", é a maior delas.
Há algo profundamente irônico em David Almeida ser, potencialmente, o candidato mais forte ao governo do Amazonas em 2026 justamente porque ele não é candidato. Sua posição de "neutralidade estratégica" — apoiando Omar Aziz, mas mantendo sua própria força eleitoral intacta — lhe dá um poder de barganha que nenhum outro político no estado possui.
Se Omar Aziz vencer, David Almeida será o "padrinho" da vitória, tendo garantido o voto decisivo de Manaus. Se Omar perder, David Almeida poderá argumentar que "avisou" — e que deveria ter sido candidato desde o início. É uma posição quase inexpugnável.
Em junho de 2025, durante a inauguração de obras em Manaus, David Almeida exibiu força política ao lado do vice-governador Tadeu de Souza, refutando rumores de racha no Avante e reforçando a coesão de seu grupo. A mensagem era clara: ele não precisa disputar para estar no controle. Pelo menos, não ainda.
Mas aqui está a verdade inconveniente que os formadores de opinião sussurram nos corredores de Manaus: se David Almeida mudar de ideia nos próximos seis meses, ele pode virar o tabuleiro. E com 12 meses ainda pela frente, com pesquisas voláteis, alianças frágeis e um eleitorado indeciso, nada — absolutamente nada — está garantido.
A eleição de 2026 no Amazonas será lembrada não pelos candidatos que se lançaram cedo, mas por aqueles que souberam esperar o momento certo. E se há algo que a volatilidade extrema das pesquisas nos ensina é que o "momento certo" ainda não chegou.
David Almeida pode, de fato, cumprir sua palavra e apoiar Omar Aziz até o fim. Mas os formadores de opinião no Amazonas — e os próprios números — sugerem outra possibilidade: que ele está apenas aguardando o cenário amadurecer. E quando (ou se) isso acontecer, a corrida eleitoral de 2026 pode se transformar em algo completamente diferente do que estamos vendo hoje.
Até lá, uma certeza: na política amazonense, a única constante é a mudança. E David Almeida, o homem que diz "não", pode ser a maior mudança de todas.
Pesquisas Eleitorais:
Veículos de Imprensa:
Fontes Oficiais:
Análise de Mídias Sociais:
Este editorial reflete a opinião do autor e foi elaborado com base em dados de pesquisas eleitorais, reportagens jornalísticas e análises políticas disponíveis publicamente até outubro de 2025.
*Adão Gomes é Jornalista de Formação MTB-AM 000191
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